O S34 Tikuna volta ao Atlântico Norte... para "caçar" PDF Print E-mail
Friday, 10 July 2009 02:12

Pela primeira vez um órgão de imprensa brasileira acompanha um exercício naval de primeira grandeza, no exterior, desde uma perspetiva submarina. ALIDE não pode deixar de agradecer tanto à Marinha do Brasil quanto a Força de Submarinos esta grande honra e a confiança em nós depositada.

Mesmo fora das Forças Armadas não resta dúvida que os nossos cinco submarinos diesel-elétricos constituem-se na ponta de lança da dissusão militar brasileira. Em breve uma grande revolução será colocada em marcha, com a efetiva duplicação da Força de Submarinos e a criação de uma nova base dedicada e de um moderno estaleiro em Sepetiba no Estado do Rio. Faz então todo o sentido que este primeiro e espetacular investimento na recomposição das nossas Forças Armadas ocorra com a significativa expansão da Força de Submarinos.

Um diário de bordo do Tikuna durante a UNITAS Gold 2009   

Chegamos a Mayport, uma base naval americana na  costa nordeste Flórida onde fica a sede do NAVSO (US Naval Forces Southern Command, a Quarta Frota e o Destroyer Squadron 40 (DESRON40). Esta base serviu de sede para a 50ª edição do exercício UNITAS com a presença de 12 marinhas e 13 navios e submarinos estrangeiros.  

Corredor do Tikuna
Corredor do TikunaCorredor do Tikuna
Manutenção do periscópio no compartimento de comando.
Manutenção do periscópio no compartimento de comando.Manutenção do periscópio no compartimento de comando.
Motores
MotoresMotores
Tikuna em Mayport, visto de proa.
Tikuna em Mayport, visto de proa.Tikuna em Mayport, visto de proa.
Toilete. A porta à esquerda é o chuveiro.
Toilete. A porta à esquerda é o chuveiro.Toilete. A porta à esquerda é o chuveiro.
 

Taifeiros trabalhando na cozinha.
Taifeiros trabalhando na cozinha.Taifeiros trabalhando na cozinha.
Compartimento de comando em dia de faina.
Compartimento de comando em dia de faina.Compartimento de comando em dia de faina.
Gaudério é gaudério.
Gaudério é gaudério.Gaudério é gaudério.
Verificando os mantimentos
Verificando os mantimentosVerificando os mantimentos
Check-list
Check-listCheck-list
  

Mayport Naval Station, quinta-feira, 23 de abril de 2009

Este “Diário” começou propriamente no momento em que ALIDE embarcou no Tikuna. Fomos então recebidos pelo próprio Comandante Nelson, um gaúcho fanático pelo Internacional de Porto Alegre, e pelo seu Imediato. 

Conhecendo por dentro o IKL 209-1400 Mod

Para começar, o Imediato nos levou para uma pequena excursão pelo interior do submarino. O Tikuna é uma evolução do projeto alemão IKL-209, mas trata-se verdadeiramente de uma classe à parte, tamanha a quantidade de modificações que foram feitas pelos engenheiros brasileiros. Embora o submarino seja pequeno, o passeio foi demorado. Mas ninguém aqui tem pressa. Afinal, a missão está prevista para durar onze dias de mar. Começamos pela Sala de Torpedos, que também serve como rancho (sala de refeições) dos praças. O Imediato aproveitou esta oportunidade para mostrar, de modo  sumário, quais são os procedimentos da tripulação em diversas situações. Penduradas na sala de torpedos existem duas televisões lado a lado. Aqui a tripulação que está descansando, pode cochilar ou ver um filme, documentário ou shows. Quem tá "de pau" (de serviço) está ocupado com a "faina" (trabalho) e quem não está pode descansar ou visitar a Base de Mayport ou a cidade de Jacksonville . 

A nossa visita passou pelos camarotes, incluindo o do Comandante, que é o maior camarote de todos. Naturalmente, um patamar de conforto proporcional ao nível de responsabilidade assumido por ele. Próximo ao camarote do Comandante, fica a Sala de Comando. Ali é que é, propriamente, o “cérebro” do navio. Nesta sala estão localizados os monitores e equipamentos eletrônicos que garantem tanto a letalidade quanto a sobrevivência da embarcação. A visita se encerra na sala de máquinas, na popa. Submerso, o Tikuna é sempre movido por um grande motor elétrico que é alimentado por baterias. De tanto em tanto tempo, estas baterias têm que ser recarregadas pelos geradores elétricos (movidos pelos motores diesel) do submarino. Naturalmente, este processo de recarga somente rode ser realizado ou na superfície ou mergulhado com o duto de ar da vela para fora d’água, o processo chamado de “snorkeling”. 

Compartimento de máquinas
Compartimento de máquinasCompartimento de máquinas
Razão de tudo.
Razão de tudo.Razão de tudo.
Fragata Blanco Encalada
Fragata Blanco EncaladaFragata Blanco Encalada
Fragata Lübeck
Fragata LübeckFragata Lübeck
Entrando em formação
Entrando em formaçãoEntrando em formação
 

Fragata Montreal
Fragata MontrealFragata Montreal
USS Oak Hill
USS Oak HillUSS Oak Hill
Fragata Constituição
Fragata ConstituiçãoFragata Constituição
Parte da frota, vista do Tikuna.
Parte da frota, vista do Tikuna.Parte da frota, vista do Tikuna.
Fragata Montreal
Fragata MontrealFragata Montreal
 

Todos, sem exceção, nos trataram com a maior cortesia. Neste primeiro dia, já almoçamos e jantamos a bordo, por sinal, uma comida excelente. Também começamos a acompanhar a rotina regular do submarino, aos poucos, nos familiarizando com o jargão naval, ou, melhor, com o jargão “submarinístico”. Esta é uma linguagem bem característica. Por exemplo, na hora do almoço o taifeiro perguntou o que queríamos almoçar. Escolhido o prato, ele perguntou em seguida: - E a jacuba? (a bebida...). Algo que chama a atenção é que a despeito dos tripulantes do submarino serem bastante jovens, alguns já mostram precoces tufos de cabelos brancos na cabeça.  

Mayport, sexta-feira, 24 de abril de 2009 

Hoje é dia de ir para o mar. Acordamos cedo e vestimos pela primeira vez o macacão operativo da ALIDE para tomar o café da manhã com o Comandante e com os oficiais na Praça d`Armas. Uma rotina que se repetirá até o término da missão. Para assistir a manobra de desatracação, o Comandante nos convida a subir na vela, aquela “torre” do submarino. Foi um espetáculo lento e interessante. O prático veio a bordo e nos guiou, passo a passo, em direção à saída da base, e daí para o alto mar. Dois botes de borracha (RHIBs) da Guarda Costeira, armados com uma metralhadora calibre 7,62 cada instalada na proa, nos acompanharam nesse trajeto. No caminho, recebemos a notícia de que o submarino canadense que havia suspendido no dia anterior, junto com o resto da frota da Unitas Gold, estava retornando ao porto por problemas técnicos. O Tikuna, recebeu elogios por parte dos marinheiros americanos, pela sua aparência impecável. Quando nos aproximamos deles, explicamos que não se pode esquecer que o submarino ainda é bem novo. Mas, realmente, o Tikuna parece ter saído do estaleiro ontem. 

O submarino canadense que participou na Unitas Gold é um modelo de propulsão convencional, o HMCS Corner Brook, da classe Upholder. Esta classe de submarinos foi desenvolvida no Reino Unido para substituir a Classe Oberon, na época ainda em serviço na Royal Navy. Os Oberon alcançaram um bom sucesso no mercado de  exportação, mas, a sua classe sucessora não foi tão feliz no mercado. Chegando até a haver um serissimo caso de incêndio a bordo no HMCS Chicoutimi, durante sua viagem de entrega em 2005. Outros problemas também apareceram posteriormente, alguns dos quais foram atribuídos a defeitos no projeto. 

Logo após o prático deixar o Tikuna, navegamos em direção a área do primeiro exercício. E recebemos uma escolta de primeira. Um grupo de golfinhos animadamente ficou brincando na nossa proa. Ficamos na superfície e maior parte do tempo neste dia e só submergimos com o cair da noite. Aprendi que os submarinistas aproveitam o máximo possível para respirar ar puro.  

Ao descermos para o interior do submarino, todos já começam a fazer guerra (brincar) comigo, incluindo as terríveis “ameaças” veladas sobre como será o meu “batismo”. Sim! Novatos em sua primeira submersão passam sempre por um “batismo” a bordo. Segundo me foi informado: “Não é possível navegar pelo reino de Netuno sem permissão e muito menos sendo pagão. Há um protocolo a ser seguido”. O vídeo vai lhes mostrar todos os detalhes desta solene cerimônia.

No dia seguinte, às 07h00 começou a primeira parte da Unitas Gold, um exercício em que uma aeronave P-3, semelhante a que a FAB comprou recentemente, tentaria localizar o Tikuna. Todos os tripulantes a bordo claramente apostam no submarino brasileiro. Não se trata de arrogância, mas de um real conhecimento do potencial da arma que estes homens operam. Os submarinos diesel-elétricos, como este, são absurdamente silenciosos, e o Tikuna parece ser mais silencioso ainda do que o normal.

Soou o alarme de imersão e nós mergulhamos.

Após a submersão, foi feito um briefing da missão em termos gerais para toda a tripulação, exceto, é claro, para quem estava de pau (de serviço) naquela hora.  

Costa da Flórida, sábado, 25 de abril de 2009

Nossa ansiedade com o exercício envolvendo o Tikuna e a aeronave P-3C, acabou se transformando em frustração. O nosso “anfitrião” chegou 20 minutos atrasado ao ponto de encontro, fez contato, como previsto, e simplesmente desapareceu. Chegamos a observar a aeronave circulando próximo de onde estávamos, inclusive eu mesmo tive a oportunidade de observá-lo pelo periscópio, mas o avião acabou não respondendo às chamadas de rádio do Tikuna. Em apenas uma oportunidade, foi estabelecida comunicação com P-3, mas depois disso, total silêncio. O exercício acabou as 11h00. Na prática não houve exercício. Uma das finalidades declaradas seria treinar a tripulação do P-3C para visualização dos mastros do nosso submarino.

USS De Wert, retornando a Mayport
USS De Wert, retornando a MayportUSS De Wert, retornando a Mayport
P-3C da US Navy
P-3C da US NavyP-3C da US Navy
P-3C da US Navy
P-3C da US NavyP-3C da US Navy
Tripulação do Tikuna prestes a começar a faina de desatracação.
Tripulação do Tikuna prestes a começar a faina de desatracação.Tripulação do Tikuna prestes a começar a faina de desatracação.
Detalhe da vela
Detalhe da velaDetalhe da vela
 

Tikuna em Mayport, visto de popa
Tikuna em Mayport, visto de popaTikuna em Mayport, visto de popa
O glorioso espardarte.
O glorioso espardarte.O glorioso espardarte.
Compartimento de torpedos
Compartimento de torpedosCompartimento de torpedos
Compartimento de manobras
Compartimento de manobrasCompartimento de manobras
Compartimento de manobras
Compartimento de manobrasCompartimento de manobras
 

E chegou a hora de me batizarem. Teoricamente, o batismo consiste em comer uma colher inteira de sal e besuntar meu rosto de graxa.  Mas segundo dizem, este batismo foi acochado (aliviado). Que sorte.  

Como o exercício não teve o desenvolvimento esperado, só nos restou ficar ouvindo as explosões de um novo tipo de sonobóia que os americanos criaram. Isso mesmo, explosões. Ao invés de sinais sonoros emitidos pelas sonobóias convencionais, esta explode e não é difícil imaginar qual o objetivo desse tipo de artefato. No briefing da Unitas Gold, ao serem informados de que tal artefato seria usado, os comandantes dos três submarinos envolvidos no exercício (Corner Brook, Tikuna e o USS Newport News) não gostaram nem um pouco da idéia. O comandante americano protestou veementemente contra o uso deste equipamento, mas asseguraram aos comandantes dos submarinos que seu uso seria limitado e os lançamentos seriam feitos de uma distância segura. É o que todos esperam. O Comandante e o Chefe de Operações discutiram uma tática que nos pareceu bastante ousada e que se fosse numa situação real, seria bastante arriscada. Mas submarinos foram feitos para correr riscos.  

Compartimento de manobras
Compartimento de manobrasCompartimento de manobras
Escotilha.
Escotilha.Escotilha.
Tikuna em Mayport.
Tikuna em Mayport.Tikuna em Mayport.
Compartimento de comando. Sempre movimentado.
Compartimento de comando. Sempre movimentado.Compartimento de comando. Sempre movimentado.
Acompanhando a desatracação. A vela é o melhor local para assistir.
Acompanhando a desatracação. A vela é o melhor local para assistir.Acompanhando a desatracação. A vela é o melhor local para assistir.
 

Tripulação na faina. Desatracando em Mayport.
Tripulação na faina. Desatracando em Mayport.Tripulação na faina. Desatracando em Mayport.
O Tikuna recebe uma escolta de primeira.
O Tikuna recebe uma escolta de primeira.O Tikuna recebe uma escolta de primeira.
O Tikuna recebe uma escolta de primeira.
O Tikuna recebe uma escolta de primeira.O Tikuna recebe uma escolta de primeira.
Comandante Nelsone e o repórter da ALIDE.
Comandante Nelsone e o repórter da ALIDE.Comandante Nelsone e o repórter da ALIDE.
Nossa escolta se diverte.
Nossa escolta se diverte.Nossa escolta se diverte.
 

Costa da Flórida, domingo, 26 de abril de 2009

As atividades começaram cedo. Muito cedo. A partir das 04h00 um Grupo Tarefa composto por nove embarcações de superfície tentou nos localizar. Nossa missão foi nos “escondermos” e, se possível, tentarmos atacar as naves que participam do exercício. A manobra ousada do Comandante Nelson foi simplesmente deixar que a Força tarefa viesse ao nosso encontro. Faz sentido. Uma vez que nossa velocidade em imersão é bastante reduzida, se tentássemos nos aproximar deles teríamos que aumentar muito nossa velocidade, o que esgotaria as baterias em muito menos tempo e para podermos manter uma velocidade que nos permitisse uma aproximação, seria necessário “esnorquear”, o que poderia revelar nossa posição, e essa é sempre a última coisa que um submarino deseja. A tarefa de esconder-se no mar pode parecer ingênua, mas é possível, pois o mar é naturalmente barulhento. Um dos “sonazeiros” me chamou e me deixou “ouvir” o mar por alguns instantes. Realmente, o mar produz sons dos mais variados, desde baleias, até terremotos. Um submarino pode esconder-se no meio do oceano sem problemas, especialmente um submarino convencional. Na tela do sonar, aparecem as emissões das naves que nos procuram. Em vão. Às 05h00 o Comandante manda guarnecer EDA (Equipe de Ataque) e pouco tempo depois, fazer a simulação do alagamento e equilíbrio dos tubos 1 e 2. Temos dois alvos na marca. Ficamos em boa posição e não fomos detectados e com isso, o Comandante ordena mecha (abrir fogo) nas duas embarcações que estão bem ao nosso alcance. Na verdade essa faina leva muito mais tempo do que o que foi descrito aqui para nossos leitores e também é bem mais complexa.  

A localização do alvo é informada ao Comandante o tempo todo, bem como sua velocidade, a fim de permitir determinar a melhor tática para o ataque. O submarino navega de acordo com as emissões captadas pelos sensores de bordo. Como não recebemos nenhuma chamada nos hidrofones, assumimos que não fomos detectados.

Logo após o fim do exercício às 11h00, numa conversa com o Chefe de Operações do Tikuna (o CHEOP), ele informa que os dois navios que atacamos podem ser o HMCS Montreal e a fragata Lübeck da Marinha Alemã, mas para ter a certeza mesmo , só durante o debriefing da missão. Com o encerramento deste exercício, recebemos ordem de emergir e formarmos junto com o resto da esquadra. Aproveitamos e pedimos permissão para subir na vela para fazer fotos da FT. Infelizmente nossa posição não era das melhores e as fotos não saíram com a qualidade esperada. Algumas aeronaves nos circundavam. Um P-3C, um SH-60 Seahawk e um Super-Lynx da Marinha Brasileira que voa direto sobre nós e nos saúda. Como bons brasileiros, caprichamos nas fotos da Fragata Constituição (F-42).

O exercício seguinte envolve a exibição com da silhueta do submarino para familiarização das embarcações de superfície participantes.

Após recarregarmos as baterias, nos preparamos para submergir de novo. As 17h00 tivemos um novo exercício, muito mais interessante: Um combate sub contra sub. Nosso adversário foi o  USS Newport News, submarino de propulsão nuclear Classe Los Angeles A previsão de encerramento era às 22h00. O submarino americano naturalmente leva vantagem no confronto pelo fato de ser muito mais veloz. Mas, o Tikuna é muito mais silencioso e muito menor.  Muitas vezes, ser menor pode ser bem melhor. Pontualmente, estávamos na área determinada para o exercício e os sonarzeiros, começaram seu trabalho com redobrada atenção. Passadas pouco mais de uma hora e meia desde o começo do exercício, não logramos contato com o USS Newport News. Devido ao grande número de navios na mesma área, o nível de ruídos externos nos atrapalha bastante. Mas por volta das 19h00 localizamos e mandamos mecha num alvo plotado. Chamamos os americanos pela fonia, mas eles não respondem. Nos exercícios é previamente combinado que quando um alvo é plotado, ele recebe uma chamada da nave atacante com uma senha e responde com uma contra senha. Mas os americanos não respondem. Ou não nos ouviram, ou preferiram não ouvir.    

Segunda-feira, 27 de abril de 2009

Neste dia tivemos outro sub contra sub. E para variar, começando no meio da  madrugada, às 04h00, com encerramento às 08h00. Logo depois do começo do exercício, conseguimos captar algumas emissões. As 05h00 ouvimos a chamada do Newport News e conseguimos efetuar um ataque cerca de 1 hora depois. Depois disso, mais nada. Ficamos no aguardo para o exercício que foi efetuado na parte da tarde, às 17h00.

A vida a bordo de um submarino moderno é um tanto distinta daquilo que se imagina de terra. Nos momentos que sobravam entre os eventos havia tempo suficiente para poder prestar a atenção e finalmente compreender a realidade deste ambiente tão diferente. Ao contrário do que se vê no clássico filme “Das Boot”, atualmente, já não há falta de higiene. Pelo contrário, há muita. A parte da vida a bordo mais complicada é, sem dúvida, tomar banho. Não por qualquer tipo de racionamento de água, mas meramente por uma questão de falta de espaço. Existem dois chuveiros no submarino. Os tripulantes ficam, literalmente, “encaixotados”, uma vez que o chuveiro é praticamente um armário ocupando uma área de no máximo uns 60 x 45 cm . Levantar os braços é quase impossível e se o sabonete cair, você não conseguirá apanhá-lo.

Na Praça D’Armas fica uma televisão com um aparelho de DVD. É ali que os oficiais, na sua hora de descanso, relaxavam assistindo filmes, documentários ou jogando “Aliados”.  Reza a lenda que este jogo foi criado por um marinheiro e que teria recebido uma proposta para vender a patente para uma grande empresa de brinquedos e não aceitou. Este jogo faz parte da cultura naval e raramente é conhecido fora deste ambientel.  Ele é jogado com dados num tabuleiro de pano. “Aliados” é um jogo muito engraçado. Não pelo jogo em si, mas pelo fato de que para jogar Aliados é indispensável  a figura que em outros tipos de jogos é simplesmente abominada, o “pirú”. A tradicional máxima: “Pirú de fora não dá piruada”, cai por terra quando se joga Aliados. A graça está exatamente em ser o “pirú”. E nesse mister, o Comandante Nelson é imbatível. O Imediato é um dos que mais vibra com o jogo, já que ele durante a comissão teve a “honra” de conseguir “Morrer na Caveira com o Mar e Guerra com dois Charlies”. Em bom português: ele tirou “1” nos dois dados e foi penalizado ao cair sobre uma casa ruim. Os tripulantes que não estão jogando, ou trabalhando ou descansando podem estar no “Momento Banzo”. O “Banzo”, está registrado na História do Brasil como o momento em que os escravos sentiam saudade de casa. Casa da qual tinham sido retirados à força, ou seja, é aquela hora em que a saudade bate. E não tem como escapar do banzo. Todo mundo, em algum momento vai padecer a bordo deste momento, inclusive os visitantes que embarcam por apenas poucos dias. Quando ALIDE embarcou, o Tikuna já estava em missão havia dois meses e eles só retornariam ao Brasil no final de agosto. E ainda tem gente, que acha que a vida de militar é cheia de mordomias.

Às 19h00 começamos outro exercício. Agora seríamos nós contra o submarino canadense HMCS Corner Brook. Cerca de hora e meia após o início, captamos algumas emissões e na fonia, ouvimos algo, mas o sinal estava incompreensível. Identificamos um contato e a tripulação ficou alerta. O sonar informou que o sinal provavelmente era de um submarino e logo depois, fizemos mecha nele. Dois ataques foram realizdos e depois solicitamos check de posição, mas novamente, a fonia estava incompreensível. Às 22h00 encerrou-se o exercício. 

Terça-feira, 28 de abril de 2009 

Briefing da missão.
Briefing da missão.Briefing da missão.
Chemaq observando a superfície.
Chemaq observando a superfície.Chemaq observando a superfície.
Chemaq observando a superfície.
Chemaq observando a superfície.Chemaq observando a superfície.
Compartimento de comando operando a noite.
Compartimento de comando operando a noite.Compartimento de comando operando a noite.
No compartimento de manobra.
No compartimento de manobra.No compartimento de manobra.
 

No compartimento de manobra.
No compartimento de manobra.No compartimento de manobra.
tikuna_47
tikuna_47tikuna_47
Compartimento de comando
Compartimento de comandoCompartimento de comando
Compartimento de comando em ação.
Compartimento de comando em ação.Compartimento de comando em ação.
Compartimento de comando. Preparando o ataque.
Compartimento de comando. Preparando o ataque.Compartimento de comando. Preparando o ataque.
  

O dia deveria ser especialmente agitado. Segundo o planejamento da UNITAS este deveria ser o dia em que a narrativa para os leitores de ALIDE, seria a mais prazerosa e empolgante, mas, infelizmente, acabou sendo a prova viva, da importância de que um país que dispõe de um litoral com a extensão do litoral brasileiro, disponha de meios navais dissuasórios adequados ao seu porte.  

O programa previa um exercício anti-submarino e nosso objetivo seria nos aproximarmos do Grupo Tarefa composto pelo USS Harry S. Truman, navio aeródromo nuclear da Classe Nimitz, do Cruzador USS Hue City, dos destróieres Arleigh Burke USS Winston Churchill (DDG-81) e USS Carney (DDG-64). O submarino da classe Los Angeles, USS Norfolk (SSN-714) e a fragata Roald Amundsen (F311), da Marinha Norueguesa, também faziam parte da força de proteção do CVN-75. Para atrapalhar a ação dos submarinos “inimigos”, os céus pertenciam aos seus predadores: os P-3C Orion e SH-60 Seahawk. Os outros submarinos, USS Newport News e o HMCS Corner Brook, também tomariam parte no exercício como “vilões”. Dentro da área delimitada na carta náutica, nosso objetivo seria encontrar e “afundar” os alvos de superfície. 

Mas foi exatamente aí que nossas carências ficaram evidentes. O GT encontrava-se navegando por uma área muito distante de nós, o que nos efetivamente impediu de alcançá-lo por sermos um submarino convencional. Neste cenário, contra um GT que se move em alta velocidade, a única arma de um submarino convencional é se posicionar prévia e silenciosamente sob sua rota, esperando o momento certo para dar o bote na armadilha. E para conseguir isso, é necessário um bocado de sorte. Ao contrário, se estivéssemos a bordo de um submarino nuclear, o panorama seria outro, pois teríamos o “fôlego” necessário para acompanhar e caçar nossos oponentes. O GT, ciente das limitações dos submarinos convencionais, navegava a mais de 20 nós, velocidadade impensável de ser alcançada navegando submersos no Tikuna  Se nosso submarino optasse por navegar a esta velocidade a duração das baterias seria mínima, anulando qualquer vantagem tática da velocidade. Na sua atividade defensiva, o GT saturou o oceano com emissões de todos os tipos: dos sonares de bordo até as sonobóias, o que dificultava aos submarinos identificar o alvo mais valioso, o USS Harry S. Truman. Some-se a isso que as forças de superfície usaram contra os submarinos uma tática engenhosa. Como o os CVN americanos dispõem de quatro eixos, eles simplesmente não utilizam dois deles, dificultando assim a identificação precisa do porta-aviões, que passou a soar no sonar dos atacantes como um grande petroleiro. Além disso, os escoltas do GT navegaram bem próximo ao elemento mais precioso do grupo, criando ainda mais confusão. 

Quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Comandante observando o alvo.
O Comandante observando o alvo.O Comandante observando o alvo.
Acompanhando as marcações.
Acompanhando as marcações.Acompanhando as marcações.
Hora de relaxar. Jogando “Aliados”.
Hora de relaxar. Jogando “Aliados”.Hora de relaxar. Jogando “Aliados”.
O snokel
O snokelO snokel
A tripulação no descanso
A tripulação no descansoA tripulação no descanso
 

A famosa, “farofa do carvoeiro”. Um iguaria e tanto!
A famosa, “farofa do carvoeiro”. Um iguaria e tanto!A famosa, “farofa do carvoeiro”. Um iguaria e tanto!
Oficiais do Tikuna na Praça D’Armas. Só falta um.
Oficiais do Tikuna na Praça D’Armas. Só falta um.Oficiais do Tikuna na Praça D’Armas. Só falta um.
Compartimento de máquinas
Compartimento de máquinasCompartimento de máquinas
Controles dos profundores
Controles dos profundoresControles dos profundores
Rancho.
Rancho.Rancho.
  

Este foi um “dia livre”. Não houve nenhuma espécie de exercício, o que não significou que a tripulação ficou ociosa o dia inteiro.  A bordo de um submarino, de uma embarcação de modo geral, não há sábados, domingos ou feriados. Todo dia é dia de faina.

Esse dia tranqüilo permitiu tentar compreender como que cada tripulante percebia individualmente conversar com as características, satisfações e dificuldades da profissão que eles abraçaram. Um dos sonarzeiros, conversando francamente, disse que “ama o que faz, e que tem uma profissão bonita”. Os sonarzeiros talvez sejam uma das categorias mais especiais da Marinha Brasileira, sendo, também, uma das mais orgulhosas. Um outro falou sem modéstia alguma: “Sou sonarzeiro há 18 anos e nunca perdi um sub contra sub”. Eles são literalmente os “ouvidos” do submarino. E errar, é um luxo que eles não podem se permitir.  

O condicionamento psicológico firme é outra característica-chave da profissão. Um sujeito do tipo esquentado, dentro de submarino, está perdido. Todos, sem exceção, exibiam um excelente bom-humor. Exceto na hora do trabalho, quando a seriedade imperava. Não que ficassem mau humorados, mas, nessa hora, era indispensável manter  o foco. Uma coisa que chamou a atenção foi como, a toda vez que um alvo era identificado e plotado, todos os que não estavam de serviço vinham ver o desenvolvimento das operações. Até mesmo os taifeiros!

Os cozinheiros do Tikuna são excelentes, por isso a comida é muito boa. Quando é aniversário de alguém, com certeza, vai haver um bolo assado e confeitado. E fazer aniversário longe de casa já é rotina para muitos na tripulação. 

Rancho.
Rancho.Rancho.
Aniversário, sempre tem bolo.
Aniversário, sempre tem bolo.Aniversário, sempre tem bolo.
“Sonazeiro” em ação
“Sonazeiro” em ação“Sonazeiro” em ação
Na marca Tikuna!
Na marca Tikuna!Na marca Tikuna!
“Sonazeiro” em ação II
“Sonazeiro” em ação II“Sonazeiro” em ação II
 

Assistir o pôs do sol, pode provocar o “momento banzo”.
Assistir o pôs do sol, pode provocar o “momento banzo”.Assistir o pôs do sol, pode provocar o “momento banzo”.
Um SSN Classe Los Angeles, estava por perto.
Um SSN Classe Los Angeles, estava por perto.Um SSN Classe Los Angeles, estava por perto.
Escolta em Kings Bay
Escolta em Kings BayEscolta em Kings Bay
Preparando a atracação. Mergulhador já equipado.
Preparando a atracação. Mergulhador já equipado.Preparando a atracação. Mergulhador já equipado.
USS Albany em King’s Bay
USS Albany em King’s BayUSS Albany em King’s Bay
  

Quinta-feira, 30 de abril de 2009 

Mais um sub contra sub. Na verdade, hoje foi o início do “free play” que se estenderia sem interrupção até o dia 2 de maio. Nosso adversário desta vez foi o USS Norfolk, mas também tivemos encontros com outros oponentes de superfície. O início se deu às 00h00. Aproximadamente 40 minutos após a partida, o nosso sonar captou sons que o operador qualificou como um “provável pesqueiro”. O que estaria fazendo um navio de pesca bem no meio de uma região do oceano em que estava ocorrendo um exercício naval da magnitude da Unitas Gold, é algo a se conjecturar. Por volta das 05h30, o sonar captou um provável submarino nuclear, e próximo (em termos navais). Tentou se esconder, mas foi tudo em vão, e acabou se afastando sozinho. Depois disso, só houve monotonia, algumas poucas emissões, e somente às 15h30, conseguimos captar o som de um provável navio de guerra, mas nada conclusivo. Quase três horas depois, às 18h20, fomos sobrevoados por um avião de patrulha P-3C enquanto “esnorqueávamos”.  O período de snorkel foi interrompido e submergimos até a cota de 60 metros. Por volta das 19h20, captamos, ao longe, as emissões características de sonobóias. 

Sexta-feira, 1º de maio de 2009

Pelo segundo dia, o “free play” seguiu seu rumo, e logo depois das 00h00 o sonar do Tikuna captou um som que foi identificado como sendo  o do USS Harry Truman. Mas, infelizmente os sons indicam que o navio está longe demais. Uma vez mais, nos faltou “fôlego” para empreender a caça. Bem mais tarde, perto das 08h30 esnorqueamos uma vez mais e captamos a emissão de um navio de guerra. Pouco mais tarde, foi captada a provável assinatura acústica de um destróier da classe Arleigh Burke. O avistamento de  uma ponta de mastro pelo periscópio, confirmou todas as suspeitas anteriores. Logo depois, quando o relógio marcava 09h33, avistamos uma aeronave AS332F1 Super Puma da Marinha Chilena, que sobrevoou o navio em seguida. Logo depois, mais emissões e em seguida o contato com os dois alvos foi perdido.

Durante o resto do dia, ficamos sem qualquer novidade. Mas às 21h29 identificamos, plotamos e disparamos os nossos torpedos contra um submarino nuclear. No mesmo momento, captamos mais emissões, inclusive de sonobóias.  As 23h39 um novo sinal foi identificado provavelmente de uma fragata classe Oliver H. Perry e pouco depois, outra emissão de um provável navio de guerra.

Durante o jantar o terceiro membro da Alide recebeu do Comandante do Tikuna um certificado registrando nossas 238 horas de mergulho e o diploma de batismo. Nada mal para um paisano. 

Atracando em King’s Bay. Observem os hangares ao fundo.
Atracando em King’s Bay. Observem os hangares ao fundo.Atracando em King’s Bay. Observem os hangares ao fundo.
Super Lynx da Constituição.
Super Lynx da Constituição.Super Lynx da Constituição.
Seahawk da US Navy.
Seahawk da US Navy.Seahawk da US Navy.
Super Lynx da Constituição.
Super Lynx da Constituição.Super Lynx da Constituição.
 

 

Sábado, 02 de maio de 2009 

Começamos o dia perdendo contato com um alvo. Pouco depois do meio dia encontramos o USS Norfolk e abrimos fogo, não uma, mas duas vezes. Para variar, os americanos não confirmaram. De resto, captamos algumas emissões e quando fomos à cota periscópica, recebemos a ordem de guinar para o porto. Achamos que iríamos voltar para a Base Naval de Mayport, mas a ordem foi outra: deveríamos nos dirigir para a base de submarinos de Kings Bay, no estado da Geórgia, cinqüenta quilômetros ao norte [GE: 30°48'0.21"N  81°30'40.61"W].  

Kings Bay é uma base espetacular pelo tamanho e pela infraestrutura logística. Na base há dois grandes “hangares” que lembram bastante o Hangar do Zeppelin, na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. A função deles é precisamente evitar que satélites espiões de amigos e inimigos observem o processo de carga e descarga dos mísseis nos submarinos. Outro detalhe interessante é que toda vez que os submarinos chegam e partem da base, eles são escoltados, pelos dois lados por duas embarcações que embora fisicamente se assemelhem a rebocadores, apresentam um prolongamento partindo do passadiço e terminando na popa, um verdadeiro costado de ferro maciço montado de cada lado. Sua função é garantir a proteção do submarino contra possíveis ataques vindos de terra.  A base fica num local cheio de canais e ilhas onde um terrorista teria facilidade de se ocultar nas margens. 

Encerrado o processo de atracação do Tikuna, despedimo-nos do Comandante e de sua tripulação e deixamos a base da US Navy em direção a outras aventuras, antes do regresso ao lar. Seguimos nosso rumo.  

Conclusão

Em 1982, durante a Guerra das Falklands/Malvinas, a materialização de um único submarino nuclear britânico bastou para colocar toda a frota de superfície da Armada Argentina no porto até a data da capitulação. Isso ficou ainda mais dolorosamente claro com o afundamento do ARA General Belgrano nas mãos de um submarino que ele nem sequer viu chegar perto. Vários fatores levaram a Argentina à derrota. Um dos mais importantes foi a sua forte dependência tecnológica de fornecedores localizados em outros países. Outro foi a sua frota de submarinos que na época estava reduzida a apenas dois navios, um número infinitamente inferior ao que demandaria naturalmente uma nação com tantos quilômetros de costa, como a Argentina. 

 

Mas se levarmos em conta as palavras mestras da nossa recém-publicada Estratégia Nacional de Defesa, fica claro que no âmbito político nacional já é consenso que os submarinos são hoje, e serão cada vez mais, a arma principal de dissuasão militar da Pátria. Por isso, o tamanho da frota de submarinos diesel-elétricos esteja sendo quase que dobrado neste momento, e que, finalmente, poderemos ter uma data firme para a construção do primeiro submarino nuclear totalmente desenvolvido e construído no novo estaleiro/base contratado à empresa francesa DCNS. Assim o governo demonstra ter compreendido claramente os riscos de se ficar dependente de “caixas pretas” e tecnologias estrangeiras neste importante setor. 

 

Os submarinos nucleares são armas de altíssimo valor estratégico. Mas o submarino em si é apenas uma plataforma para o lançamento das armas. De nada adianta submarinos sem sensores e armas: torpedos, mísseis e minas da mais nova geração. Estes sistemas devem, se seguirmos fiéis, ao espírito da END, vir a serem fabricados no país de forma a não sermos condenados a reprisar a dura experiência da Argentina em 1982.  

 

No que depender de preparo e da dedicação dos homens, avaliando-se unicamente por estes poucos dias passados a bordo do Tikuna, a Força de Submarinos e o Brasil estão muito bem servidos.  

 

A escritora Rachel de Queiroz disse certa vez: “Quando houverem se acabado os soldados do mundo, quando houver a paz absoluta entre os povos, que fiquem pelo menos, os Fuzileiros como exemplo de tudo de belo e fascinante que eles são”. Com o devido respeito aos Fuzileiros, mas, Dona Rachel nunca deve ter conhecido os homens que vivem suas vidas a bordo de um submarino.  

 

Agora, do ponto de vista exclusivamente pessoal, especialmente por eu ser um admirador de longa data da arma submarina, esses dias passados na companhia da tripulação do mais moderno e letal submarino da Marinha do Brasil, foi uma experiência mais do que gratificante.

 

Na marca Tikuna!

 

 

Last Updated on Friday, 21 August 2009 22:18
 

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