F-41 Defensora: A "Deusa" nos mares do norte PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Wednesday, 04 November 2009 12:28

 

 

O Brasil na Joint Warrior 092: Fragata, Helicóptero, MECs e GVI/GP

A cada ano que passa a Marinha do Brasil tem recebido cada vez mais convites para que seus navios participem de exercícios militares de porte pelo mundo afora. Em 2009 pela primeira vez a Marinha enviou um a fragata para participar do exercício britânico Joint Warrior um dos mais complexos e exigentes exercícios no planeta. ALIDE foi junto com a Defensora até a Escócia e trouxe toda a história para seus leitores.

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Preparando a viagem ao Atlântico Norte

Muita coisa tem que ocorrer para que um navio de guerra esteja pronto para participar de uma viagem ao exterior de alguns meses de duração. Se houver um prazo adequado de antecipação, todas estas coisas haverão de estar prontas antes do dia da partida. Mas nem sempre o “tempo adequado” é um luxo do que se pode dispor. O padrão na Marinha do Brasil é de dar à tripulação pelo menos sessenta dias para o completo preparo para uma missão de longa duração como esta. Porém, nesta ocasião, mudanças de última hora sobre qual seria o navio a ir para a Escócia, deram aos homens da fragata Defensora não mais do que 23 dias para botar tudo no seu navio em dia. A vinda da Defensora para o Exercício Joint Warrior na Escócia foi um destes casos em que apenas o alto nível de adestramento das tripulações e a colaboração de diversos outros navios e órgãos da Marinha do Brasil permitiu que essa missão tivesse o êxito desejado.

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Segundo o Imediato do navio, o Comandante Cambra: “comissões de longa duração como esta pedem um planejamento logístico detalhado, e demandam modificações e atualizações constantes a cada nova missão deste tipo. Missões anteriores de navios da Marinha, especialmente para a ‘Comptuex’, nos EUA, e para a ‘Swordfish’, na Europa, nos deram um histórico sobre o qual apoiar nosso planejamento. Normalmente definimos uma missão de longa duração como aquela que tem mais do que duas pernas com mais de dez dias de mar cada. Nesta, temos cinco pernadas maiores que isso! Além disso, temos a necessidade de nos preparar para operações em clima frio, pois, iremos até bem perto do paralelo 60° norte. Dentro do prazo apertado que tivemos ainda no Rio foi dada a prioridade para reparos nas turbinas, motores, geradores, grupos auxiliares, armamento e sensores. A operação em clima frio trouxe alguns benefícios extra. Os motores, por exemplo, voltaram ao seu desempenho propulsivo original, no clima frio, este desempenho sempre foi superior ao obtido no Brasil. Um exemplo disto, é que a 14 nós de velocidade a temperatura dos motores aqui fica em 500°C enquanto, nos mares europeus, essa temperatura cai para apenas 400° C. Isso tem evidentes benefícios na área da manutenção e da durabilidade dos motores. Mas por outro lado, operar no frio traz novas dificuldades. O óleo que vai ser usado na propulsão tem que ser pré-aquecido antes de ser queimado, no Brasil isso é completamente desnecessário, e quando não se pratica alguma coisa regularmente, como isso, existe sempre o risco de que a tripulação esqueça os detalhes do procedimento, por absoluta falta de prática. Tivemos ainda que conseguir abrigo de clima frio (roupas) para todo o pessoal que trabalha no exterior do navio.”

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Outra parte crítica foi o abastecimento do navio para esta missão. “precisamos levar sobressalentes dos principais sistemas, entre 150 e 200 itens. Tivemos que nos preparar para umas 1200 horas de funcionamento de motor, felizmente o projeto da Fragata da Classe Niterói previu amplo espaço interno para paiol de suprimentos mecânicos. Estamos transportando gêneros alimentícios para todos os 45 dias da viagem. Nós deixamos a Base Naval de Mocanguê com um cardápio definido para cada refeição durante todo este período. E lembre que são quatro refeições, para 250 homens, a cada dia! Comprar alimentos fora do Brasil até pode ser feito, mas não vale a pena devido ao seu maior custo. Por exemplo, na Escócia um melão custa R$18,00 enquanto no Brasil ele não passa de 3,00 reais. Os itens mais perecíveis, como, verduras, legumes e frutas tem que ser repostos no exterior, e isso é feito com o apoio das adidâncias e dos operadores logísticos locais”.

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Os amplos tanques de combustível, e a sua propulsão a diesel, permitem que a Defensora navegue em patrulha de baixa velocidade entre 15 e 20 dias antes de precisar se reabastecer, simplificando a realização de comissões como esta, permitindo que sejam feitas sem o apoio de um navio-tanque.  Na área da saúde, foi incluído temporariamente na tripulação um cirurgião dentista que até a metade da viagem já tinha realizado mais de 150 consultas e atendimentos, sendo um deles, uma de emergência para um tripulante dinamarquês. O estoque de remédios do navio, igualmente, foi reforçado pelo Centro Logístico da Saúde para responder à longa duração desta comissão. Todos os militares embarcados estavam, necessariamente, com suas inspeções de saúde em dia. Devido ao surto de gripe suína no nosso inverno, a Marinha estava particularmente preocupada e atenta a qualquer caso de gripe identificado na tripulação. Nenhum foi detectado. Para minimizar o risco de um surto no navio durante a viagem as portas externas foram abertas durante o dia para permitir a recirculação/troca do ar interno.

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“Tínhamos uma preocupação grande com a questão da forma física dos tripulantes durante a viagem, o navio já contava com uma academia que foi reforçada com novos equipamentos antes da viagem. O pessoal do GVI/GP teve um programa específico de condicionamento físico focado em perna e braço que foi coordenado por um praça cursado em Educação Física. Para nós, a prevenção de acidentes passa naturalmente pela combinação de rigidez física e da atenção às regras de segurança”, explicou o Comandante Cambra. Normalmente o horário da academia dedicado aos oficiais era entre 17h e 20h.

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Mas longas comissões implicam, naturalmente, numa maior preocupação com o conforto da tripulação, especialmente durante os longos períodos no mar. A despeito de ter quase três décadas de vida a Defensora já recebeu várias modernizações no seu interior, inclusive com a instalação de 12 TV LCD e quatro conjuntos de secadora-lavadora, além da lavanderia do navio. Segundo o Imediato, “O conforto atual das fragatas classe Niterói é bem bom, e isso vem servindo como atrativo a mais para receber novos militares na tripulação. Normalmente, operamos com 22 oficiais, mas nesta missão estamos com 36 oficiais embarcados por incluirmos o Destacamento Aéreo Embarcado e a célula de Inteligência”.

O grupo de escolta da “Marinha Dragoniana”.

Dentro do cenário fictício usado no Joit Warrior, onde o país Dragônia tem problemas com o país vizinho  Caledônia, a Fragata Defensora foi subordinada ao Task Unit  606.01.02 de Dragônia, ao lado do HMDS Absalon e da HMS Northumberland, sob o comando do Comodoro Christensen da Marinha Dinamarquesa. O TU606.01.01 era composto pelo NAe HMS Illustrious (com suas aeronaves Harrier embarcadas), o USS Ramage e o HMS Portland. Finalmente, o TU 606.01.03, sob o comando do  Comodoro Kersh da US Navy, incluía o USS Cole, o USS John L Hall e o navio tanque americano USNS Laramie.  O Task Group 606.01 agrupava estas três “Task Units” e se encontrava sob o comando do Comodoro britânico Simon Ancona, no mundo real, o Comandante do Grupo de Ataque de Navio Aeródromo do Reino Unido (COMUKCSG – Commander UK Carrier Strike Group, em inglês).

Partindo de Faslane

Após alguns dias de descanso após a longa viagem, a tripulação da Defensora durante o fim de semana mergulhou nos diversos briefings previstos para antes da partida. Aqui, todos os procedimentos operacionais e de segurança forma vistos e revistos para garantir o máximo retorno durante os exercícios que começariam naquela segunda-feira, dia 5 de outubro. Cada tipo de exercício foi explicado e debatido à exaustão, assim, como, todos os procedimentos de comunicação por rádio dos dois grupos participantes, o Força Tarefa 616 da Marinha de Dragônia e a Força Tarefa 315 das Nações Unidas. No sábado ocorreu o encontro dos comandantes destes dois GTs com a “imprensa local”, uma oportunidade importante para treinar os oficiais mais graduados a interagir, com o máximo de cuidado, com o público através de membros da imprensa que nem sempre lhes serão amigáveis. Oficiais da área de RP da Royal Navy assumiram seus papéis “açoitando” e/ou “afagando” os entrevistados de acordo com as posições divergentes representadas por seus “meios de imprensa”. Este tipo de comunicação é indispensável para manter a boa vontade do público e para se evitar que mal entendidos agravem uma hipotética rejeição popular ao nosso lado. Estas experiências de falar com a imprensa são cada dia mais comuns dentro dos cursos de formação de oficiais, seja no Brasil ou no Mundo.

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No domingo à tarde, véspera da partida, foi o momento para ALIDE embarcar na Defensora, pois a movimentação do dia seguinte começaria bem cedo e toda a base estaria em polvorosa. Os informes meteorológicos para a região do norte da Escócia eram desagradáveis, eles prometiam mares muito batidos e ventos terríveis como aqueles de 60 milhas por hora que atingiram a base de Faslane no sábado.

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A segunda-feira começou antes da aurora, e como tínhamos apenas um jornalista embarcado cada foto era indispensável e nenhum detalhe poderia ser pedido.  A Defensora estava atracada bem no meio da Base Real Naval de Clyde, no ”berth” número 5. Logo à sua frente ficava o acesso ao local protegido onde ficavam as muitas lanchas de segurança da base. A missão destas lanchas revolvendo principalmente ao redor da neutralização de mergulhadores de combate e de homens-rã terroristas. Mais adiante, ficava a área isolada dos submarinos nucleares, inclusive seu grande edifício coberto de manutenção.  Uma barreira de grandes cilindros flutuaantes negros servia de “pista“ para as gaivotas locais e bloqueava o acesso de pequenas lanchas desde o mar até a área ocupada pelos submarinos.

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À ré do navio brasileiro estava um dos varre-minas da Royal Navy que levava a contra-bordo o varre-minas francês Styx. A contra-bordo da Defensora ficou a fragata Oruç Reis (F245), representando a Marinha Turca neste exercício.

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Uma das primeiras atividades nesta manhã para a tripulação de convés da “Deusa” foi receber o caminhão que drenaria os tanques de esgoto do navio, através do seu mangote de cor verde. A cada ano que passa as exigências ambientais marítimas aumentam, mesmo para navios de guerra. As fragatas da classe Niterói, como a Defensora, foram projetadas no final da década de 60 uma época onde estas preocupações simplesmente não existiam.

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O primeiro navio a partir foi o NAe Illustrious. Ele começou a soltar uma coluna de fumaça negra desde às 07h00, mas foi apenas meia hora mais tarde que com um apito grave e longo ele começou a se movimentar. Ao se separar do cais, o grande navio se dirigiu pacientemente para o centro do Gare Loch e lentamente, com a ajuda dos três rebocadores, foi girando para bombordo até estar alinhado com a saída. Na sua popa avistavam-se quatro Harriers, dispostos em forma de leque e preparados para o pronto emprego. Depois do gigante, os anões: o varre-minas britânico HMS Walney, seguido de perto o francês Styx deixou sua posição, e partiu atrás do Illustrious às 08h15. O inverno ainda não tinha chegado àquela região, mas , às 09h00 a temperatura do lado de fora do navio mal alcançava os 7°C. Em seguida foi a vez dos navios americanos deixarem Faslane. A fragata USS Hall saiu às 9h00, seguida pelo USS Ramage, meia hora depois, e pelo USS Cole, às 10h00. Depois deles, foi a vez do nosso “vizinho” turco partir, acompanhado logo depois pelo HMS Northumberland, a única escolta britânica a ter ficado conosco em Faslane. Somente às 11h00 da manhã é que a Defensora começou a se afastar do cais, partindo em sua missão para a Marinha de Dragônia.

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O Gare Loch, ao passar pelo estreito existente adiante da cidadezinha de Helensburgh, dá saída para ao Firth of Clyde, o amplo estuário do rio que banha Glasgow.  Neste canal já deveriam ocorrer as primeiras ameaças ao nosso navio. Recebemos um alerta de que por ali poderíamos ser alvo do ataque de “terroristas” montados em lanchas e jetskis. Mas nesta tarde, a ameaça prevista não passou de uma mera ameaça...

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Se para os navios da Marinha do Brasil, o risco de serem alvejados por um terrorista suicidas ainda nos parece remoto, mas isso já é realidade em algumas áreas mais “quentes” do globo.

Os Linces chegam à Escócia

Para frustração dos pilotos e tripulantes do Super Lynx de Defensora, justamente no seu primeiro exercício na Escócia, houve uma pane que ameaçou o exercício de qualificação e requalificação de pouso a bordo seguido de um “cross deck” no Cole e no Illustrious. A realização regular do QRPB garante que todos os pilotos estão afiados para realizar suas missões em um exercício, seja de dia, ou de noite. O “cross deck”, por sua vez, é onde cada um dos helicópteros embarcados realiza um número de pousos e decolagens nos navios das outras marinhas.

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No entanto, uma pequena peça que permitiria a recarga da garrafa de nitrogênio do helicóptero se danificou, e coube à oficina do navio fabricar outra para a substituição imediata. Esta carga de nitrogênio do helicóptero é usada para manter a pressão constante no sistema hidráulico ao se desligar os motores. Esse atraso imprevisto de quatro horas comprometeu toda a agenda de eventos do primeiro dia, fazendo com que fosse cumprido apenas o QRPB.

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Conversando sobre as marcações de convoo usadas na Marinha do Brasil, o Comandante do Esquadrão HA-1, CF Montenegro explicou que “a linha branca longitudinal dá ao piloto a precisa noção do centro do convoo, já a linha transversal dá a ele a idéia de onde deve estar a bequilha (trem de pouso dianteiro) do Super Lynx, mais para frente que isso existe risco da hélice acertar a parede do hangar do navio. A linha pontilhada à ré é usada unicamente para o ‘vertrep’, a entrega pelo helicóptero de carga que está dependurada pelo guindaste dos helicópteros”.

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Na terça feira, dia 6 de outubro, a Defensora navegava pelo Mar das Hébridas, em meio a um exercício antisubmarino, onde o submarino diesel-elétrico (SSK) norueguês HMNoMS Utvaer seria a ameaça ao navio tanque USNS Laramie. Aqui, cabia aos seus escoltas, a fragata Defensora, HMS Northumberland e o USS Cole a proteção navio-tanque e pela primeira vez o helicóptero Merlin da fragata britânica trabalhou em conjunto com o nosso Super Lynx para caçar o submarino. O Merlin colocava seu sonar na água e identificando o alvo, vetorava o Lynx até o local adequado para o ataque. A Defensora e o Northumberland navegavam em rotas paralelas, varrendo o fundo do mar com seus sonares, enquanto os dois helicópteros voavam entre seis e dez milhas à sua frente, formando uma UABA – Unidade Aérea de Busca e Ataque.  Ainda neste dia, o Lince teve que dar uma rápida parada na fragata inglesa para “receber instruções táticas em papel”, um procedimento de segurança para prevenir que estas instruções tivessem que ser transmitidas via rádio. Durante toda esta tarde, no segundo exercício antisubmarino  (ASW), o nosso helicóptero ficou o tempo todo em alerta (prontidão Bravo) mas não foi acionado. Desta vez o “inimigo” foi o submarino nuclear britânico HMS Trafalgar. Quarta-feira foi o dia do ataque aéreo, com várias passadas sendo realizadas pelos Falcon 20 da empresa FRA e por um par de treinadores BAe Hawk da RAF. Na hora do almoço ocorreu a primeira de várias oportunidades de realizar uma abordagem com o Grupo de Visita e Inspeção da Defensora.

A Marinha do Brasil e Missão MIO

As experiências operacionais recentes nas duas Guerras do Golfo, na antiga Iugoslávia, e agora nas costas da Somália, levaram as marinhas dos países membros da OTAN a assumir uma postura muito ativa no que concerne o acompanhamento e a inspeção de navios civis operando numa área de conflito internacional. O tempo das guerras em que marinhas de grande porte se enfrentam no meio dos oceanos parece ter chegado ao seu fim, e nestes conflitos de menor porte, lutadas primariamente em situações bastante assimétricas, navios de bandeira civil muitas vezes são usados para transportar, armas, dinheiro, terroristas, e até mesmo contrabando e drogas usados para financiar a continuação do conflito. Isso, em poucas palavras, é o que passou a ser chamado mundialmente de Maritime Interdiction Operations, ou, simplesmente, “MIO”.  

A interceptação de navios civis no meio oceano, em águas internacionais nunca fez parte da doutrina operacional da Marinha do Brasil. No nosso país, a tarefa de policiar as nossas águas territoriais/jurisdicionais sempre coube aos navios patrulha da Marinha. Estes, aqui, são “meios distritais”, ou seja, eles não fazem parte da Esquadra, onde operam fragatas, corvetas e os demais navios da nossa Marinha de “águas azuis”.

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O uso de grandes navios de guerra nesta classe de missões naturalmente desperta muitos questionamentos novos que a Marinha , o Ministério da Defesa e o Governo Federal do Brasil ainda terão que debater a fundo até formarmos nossa própria doutrina de emprego nessa área. Mas até lá, a Marinha já vem experimentando dentro dos exercícios internacionais, para poder dominar as competências necessárias para saber executar estas missões, caso a nação assim demande.

Preparando os nossos GVI/GPs

O Grupo de Vistoria e Inspeção (GVI) e o Grupo de Presa (GP), são atividades secundárias, e sempre composto por pessoal regular do próprio navio. No dia a dia, eles são armamentistas, sinaleiros, etc. que, quando exigidos, deixam suas atividades regulares para assumir temporariamente suas novas atividades. O GVI, da mesma forma que o GP, é composto por apenas dez militares.

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Antes de ser abordado, o navio suspeito é conhecido simplesmente como o “contato de interesse”, se o navio for hostil, ou não cooperativo, ele passa a ser classificado como um CCI - “Contato Crítico de Interesse”. Nestes casos específicos, o Destacamento Avançado composto por Mergulhadores de Combate (MeCs) entra primeiro e controla a situação a bordo para que o GVI possa fazer sua inspeção com segurança. Os MeCs podem ser levados ao navio via helicóptero ou por meio de lancha.

Em águas jurisdicionais brasileiras, o navio em situação ilegal seria apresado em nome do Comandante da Marinha ou, alternativamente, em nome do Capitão dos Portos do local. Em águas internacionais ainda persistem uma série de dúvidas sobre qual seria a base jurídica deste tipo de operação. O Grupo de Presa tem a responsabilidade de assumir o navio apresado e transportá-lo em segurança até o porto. O GP é assim bem diferente do GVI por não ter uma missão de cunho “policial”, sendo na verdade uma tripulação mínima, com comandante, maquinista, pessoal de passadiço, cozinheiro, eletricista, etc. Num caso de apresamento, o navio seria tripulado por uma combinação de pessoal do GVI junto com o do GP.  

Por princípio, escolha dos militares que se tornarão membros do GVI/GP segue uma regra de prioridade e de especialidade dentro da Tabela Mestra do navio. Ali, cada um dos militares que servem no navio corresponde a um número. A lista de membros então é uma sequencia predeterminada destes números. Isso, no entanto, não garante que este grupo formado quase que aleatoriamente se componha de gente que tenha tanto a melhor vocação, temperamento e o preparo físico necessários para adequadamente cumprir este papel.

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Como antes mesmo da partida já se sabia a importância que seria dada às abordagens no Joint Warrior 092, na Defensora a seleção via Tabela Mestre foi colocada de lado e outro processo foi implementado com um foco maior nos requisitos da missão, especialmente com o melhor preparo físico, no seu centro. Assim foi montado um time de voluntários que, por isso mesmo, eram muito motivados para a boa realização desta atividade.

Em agosto, pouco antes da partida, o comandante do navio solicitou que fosse dado um treinamento intensivo ao GVI/GP do navio. Para entenderem o que os esperava na Escócia, eles buscaram os relatórios de fim de comissão da Fragata Independência na Panamax de 2007 e da Fragata Liberal no mesmo exercício em 2008. O procedimento, material e a conduta de abordagem para MIO empregados na operação Panamax é efetivamente moldado no padrão da OTAN.

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Tudo começou com um treinamento teórico no Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão – mais conhecido como CAAML, ou, informalmente, como “Camaleão”. Aqui, foram estudados em grande detalhe fotos e vídeos das operações anteriores da MB e outras realizadas por forças estrangeiras. Foi preciso adequar a doutrina brasileira de abordagem para que se atendesse também aos requerimentos da OTAN, flexibilizando-a sem perder a sua funcionalidade. Em seguida, foi a vez de exercícios práticos, com e sem luz, dentro do casco da fragata descomissionada Dodsworth. Quatro militares da Polícia dos Fuzileiros Navais deram instrução a eles sobre como abordar e inspecionar os tripulantes do “Contato de Interesse”. Muito além do que apenas uma apresentação teórica, eles ensinaram a maneira segura para se algemar os suspeitos, como empunhar a pistola e como proteger o seu parceiro na dupla de inspeção.

No final, houve uma valiosa oportunidade de se passar um dia inteiro praticando tiro real contra alvos fixos e em movimento no stand de tiros do Batalhão de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais, o “Tonelero”. “É muito importante este treinamento para que estes militares deixem de ser apenas um ‘grupo’ e possam passar a cuidar das costas um do outro, transformando-se numa verdadeira equipe. Este preparo fez com que o pessoal selecionado saísse motivado, satisfeito e se sentindo preparado para atender a este novo desafio”, disse o Capitão Tenente Antonini, o oficial responsável pelo GVI/GP do navio.

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Durante a viagem pelo Atlântico, por diversas vezes, foram realizados exercícios, tanto teóricos quanto práticos, para manter os membros do GVI e dos MeCs afiados. Todos os dias havia algum tipo de exercício para o GVI, nem que fosse apenas algo ligado a primeiros socorros. Por doutrina, um dos membros do GVI é treinado em primeiros socorros, nem que ele no navio não seja o médico ou o enfermeiro. Se no início, o interesse por pertencer ao GVI não era dos maiores, ao longo da viagem, com os exercícios práticos se sucedendo regularmente dentro do navio, o número de interessados a cada dia aumentava e o grupo ia se modificando até atingir sua composição final.

Enquanto o resto da tripulação descansou durante a rápida parada em Recife, o pessoal do GVI foi ao mercado comprar os itens que faltavam para equipar sua unidade. Foram comprados coletes multi-uso, cotoveleiras/joelheiras, lanternas a prova d’água, canivetes suíços, toucas ninja e luvas. Para suportarem o frio do inverno europeu e proteger seu pessoal caso alguém caísse no mar, foram requisitados de outros navios os pesados macacões térmicos usados na Antártida. Esta foi uma das alterações a serem recomendadas à nova doutrina de GVI/GP da MB: roupa térmica para missões no frio! No total foram obtidos, de diversos navios e órgãos da Marinha, mais de cem macacões deste tipo antes da saída do Rio.

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O primeiro exercício de GVI da Defensora ocorreu no dia 7 de outubro, sendo o alvo da abordagem o compacto rebocador SMIT Yare. Fora do Joint Warrior, este navio é usado normalmentemente no treinamento de tripulações da RAF na região da Base Aérea de Lossiemouth, no nordeste da Escócia.  

A lancha de borracha do GVI tem um único motor de popa Evinrude de 90HP, e fica instalada a bombordo do convés de popa, bem perto do lançador Albatros. Diferente da baleeira e da outra lancha que ficam nas duas laterais da fragata classe Niterói, esta lancha está alocada exclusivamente ao GVI/GP. Ela foi erguida com o uso de um pau de carga removível, e baixada por meio de cordas até o nível do mar, no lado esquerdo da fragata. Durante esta faina apenas um tripulante vai a bordo, os demais descendo numa escada “quebra peito” depois que a lancha está na água e se movendo pelos próprios meios. O time do GVI era composto por um oficial e apenas seis praças, isto porque a lancha atual não é grande suficiente para comportar o time completo de dez homens mais seus dois tripulantes. Neste dia o mar estava bem ondulado, e volta e meia a lancha sumia por trás de uma onda. Durante todo este tempo, sob ordens da Defensora, o SMIT Yare estava seguindo adiante a baixa velocidade, ele não parou por completo porque sem potência o seu comandante não teria como impedir que as ondas o empurrassem em direção ao casco do navio brasileiro, potencialmente criando uma colisão perigosa. Naquele dia, uma placa lateral removível informava que o navio representava o papel do “mercante M/V Saybrook”.

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 A lancha do GVI encostou-se na lateral traseira esquerda do SMIT Yare e seu pessoal rapidamente subiu a bordo para a inspeção. Enquanto o GVI fazia seu trabalho, a tripulação da lancha afastou-a do navio suspeito e a manteve a uma distância segura, aguardando a ordem de voltar para pegá-los.  Neste primeiro cenário, uma típica abordagem cooperativa, tudo ocorreu de forma prevista e o time logo retornou ao seu navio.

Durante todo o procedimento de abordagem, o Super Lynx da Defensora orbitou sobre o alvo com um sniper (airador de elite) do MeC a bordo e com a porta lateral aberta pronto para qualquer necessidade de intervenção.

Na MB o GVI/GP é comandado por um Capitão Tenente e auxiliado por um 1º Tenente, se um deles sai do navio cabe ao comandante do navio selecionar entre seus oficiais, geralmente a tarefa cai para alguém que já seja “do convés”.

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Existem três níveis distintos de forças neste tipo de operações.

a)      Abordagem sem oposição: Tripulação amigável

b)      Abordagem com reação: Tripulação aparentemente inamistosa, comportamento reativo com armamento escondido

c)       Operação antipirataria: Não se faz no Brasil

No primeiro caso o GVI é quem faz a abordagem, no segundo os MeCs é que tomam o navio antes da entrada do GVI. No terceiro caso, por falta de ocorrência em nossa região, ainda não temos doutrina definida para sua realização. Durante todo o exercício os militares brasileiros participaram de quatro abordagens, três pelo GVI e um pelos Mergulhadores de Combate da Marinha.

Este mundo novo das operações de MIO apresentam muitas nuances novas e que certamente vão gerar muitas perguntas a serem respondidas pelo pessoal de doutrina da MB. Em uma das ocasiões de vistoria havia uma tripulante mulher que se recusou a ser vistoriada por um militar masculino, felizmente, aqui a situação era amigável, e tudo pode ser resolvido sem maiores problemas.

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O CT Antonini concluiu, comentando: “Apesar da totalidade do pessoal do GCI/GP não falar inglês”, apenas os oficiais falavam, “a missão foi cumprida, pois, treinamos e usarmos palavras-chave de compreensão universal. Os oficiais é que precisam ter o domínio fluente do idioma inglês , para os demais, uma combinação correta de atitudes e gestos foram cruciais para o sucesso das abordagens”.

Uma missão exemplar dos MeCs e dos pilotos do HA-1

No dia 10 uma ação brasileira causou uma grande repercussão,especialmente entre os demais navios do exercício. Esta seria mais uma missão para o GVI da Defensora até que os americanos solicitaram participar dela junto com os brasileiros. Com sua lancha mais potente, o GVI do USS Cole abordou o SMIT Yare primeiro e procedeu a buscar pelos quatro “piratas” que o haviam tomado anteriormente. No ar, o helicóptero AH-11A orbitava o pequeno navio com sua carga de MECs prontos para intervir se necessário fosse. Surpreendentemente, o time americano apenas conseguiu apreender três dos “piratas”e certo que tinham esgotado sua missão pediram ajuda à Defensora, que decidiu desembarcar os Mergulhadores de Combate do Lince para “terminar o serviço”. O CT Motta, piloto do helicóptero brasileiro, se aproximou lentamente em direção à popa do pequeno rebocador. As antenas de rádio localizadas ao redor do passadiço do navio eram o maior obstáculo para que o Super Lynx ficasse hoverando na posição ideal para que os sete MeCs embarcados pudessem realizar sua descida pelo método “Fast Rope”. Quando os mergulhadores de combate tomaram posição no navio os americanos foram instruídos a se retirarem, e, numa clara mudança de atitude, demonstraram que a coisa tinha ficado séria para os tripulantes do navio suspeito. Poucos minutos depois, seguindo precisamente sua doutrina de emprego, o quarto “pirata” foi devidamente localizado e dominado. Ele estava dentro de um compartimento localizado escondido no fundo do chuveiro, dentro do banheiro do rebocador. Por isso o GVI dos americanos não o encontraram.

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Após este evento exemplarmente cumprido pelos pilotos e MeCs embarcados na Defensora, o Comandante Capistrano foi convidado pelo comandante do USS Cole para visitá-lo socialmente em seu navio.Lá ele foi felicitado explicitamente pela destreza da pilotagem e pelo preparo e competência dos mergulhadores de combate brasileiros.  

Tiros contra os alvos em terra.

No dia 8, pouco depois das 14h00 Zulu nosso navio chegou ao ponto mais ao norte desta comissão: 59° 03.732 N, logo ao largo da raia de tiro de Cape Wrath  (o “Cabo da Ira” em português...). Poucos navios da história da Marinha chegaram tão próximo de cruzar o Circulo Polar Ártico (que fica em 66° 33 39″) como a Defensora naquele dia. A despeito de algumas nuvens espalhadas, o sol brilhava forte a despeito do frio que fazia.

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Uma das lições aprendidas pelos britânicos em suas recentes experiências no Afeganistão e no Iraque é que a precisão dos tiros e das bombas lançadas por aeronaves tem que ser cada vez mais impecável. Bastam alguns poucos metros de erro para produzir um grande prejuízo moral, com a morte inesperada de civis não-combatentes. Para isso, no Joint Warrior os spotters de tiro tiveram um papel muito importante a realizar. Estes militares do British Army foram inseridos por helicópteros e imediatamente começaram a passar as coordenadas dos alvos para os aviões e os navios. Oficiais brasileiros disseram que este tipo de tiro de precisão desde fragatas é uma grande mudança cultural para a MB, ainda muito acostumada ao tradicional tiro de saturação.

O Comandante Cambra, Imediato do navio brasileiro, comentou com satisfação que: “O navio brasileiro foi um dos que mais atirou aqui”. Coube à Defensora dar 20 tiros de seu canhão de proa de 4,5mm contra os alvos designados pelos três spotters que nos guiavam em terra. Nesta ocasião, vários outros navios tiveram problemas com seus tiros, incluindo aí a fragata HMS Northumberland. Mas a Defensora, a despeito de seus quase trinta anos de vida operacional, surpreendeu a muitos demonstrando uma pontaria exemplar. Mas mesmo nos locais com o melhor dos planejamentos alguns pendência sempre atrapalham o andamento das coisas. Devido à mudança do local de reabastecimento no mar (TOM) foi necessário suspender o exercício previsto de tiro contra alvos de superfície. Demonstrando o bom humor britânico o reabastecimento dos navios foi mudado do ponto “Shell” para o ponto “Total” bem mais ao sul. Por isso que o reabastecimento marcado para começar às 16h00 só se iniciou às 23h30 do mesmo dia.

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Fomos o quarto navio a reabastecer no USNS Laramie. Como anteriormente este navio havia passado por uma situação de separação emergencial com outro navio do exercício, sua tripulação estava extra-cuidadosa e um pouco ansiosa com nosso primeiro reabastecimento. No alto da sua superestrutura, o navio-tanque americano exibia um grande mostrador digital vermelho que apresentava de forma muito clara a distância existente entre os dois navios em tempo real. Durante o TOM a distância variava constantemente entre 130 e 150 pés.

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Ao mesmo tempo em que recebíamos óleo do Laramie por duas estações de boreste, por bombordo o navio-tanque americano reabastecia o grande NAe Illustrious. Toda a operação demorou bastante com os navios se separando com o sol nascente já iluminando todo o céu. O reabastecimento dos navios era necessário para passarmos em seguida à fase operacional do exercício, a chamada “Operação Cotopaxi”. Nossa missão agora seria escoltar o NAe “DS Illustrious”, a nau capitânia da Marinha de Dragônia.

A visão do comando

Assim que, às 13h20 do dia 15 de outubro, foi divulgado pelo rádio o encerramento do exercício, o comandante da fragata Defensora sentou-se com ALIDE para fazer uma avaliação inicial do Joint Warrior 092.

Ele começou contando que um navio militar é como se fosse um ser vivo, continuamente militares, oficiais e praças entram e saem da tripulação ao longo do ano. “Para podermos realizar esta missão a tabela de lotação (lista de todos os cargos no navio) foi completada e foi aumentada por uma ‘célula de inteligência’ e uma de Mergulhadores de combate, para atuar nas atividades previstas de MIO e de anti-pirataria.

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“Um mês antes da data de partida para a Escócia, participamos da Aderex, que para nós se constituiu num check final, um verdadeiro exercício pré-deployment”. A Joint Warrior foi uma operação memorável, aonde, simplesmente chegar no local do exercício já era um desafio em si. “Durante toda a nossa comissão percorreremos uma distância de aproximadamente 13.000 milhas náuticas! Durante a viagem de ida, a nossa velocidade oscilou entre 10 e 11 nós por uma questão de economia de combustível. A pernada até a Europa durou 23 dias, com uma parada em Recife. Nosso navio passou ao largo do arquipélago de Fernando de Noronha e também das ilhas de São Pedro e São Paulo. A volta, agora com as correntes marítimas a favor deverá ser cumprida em apenas 21 dias com uma parada em Lisboa e outra em Funchal, na ilha da Madeira. Nós saímos do Rio que fica a 23 graus Sul e chegamos até à raia de tiros de Cape Wrath, localizada a 59° norte. Encaramos vento real de 47 nós e de até 55 nós relativos, e isso tudo, ‘escoteiros’, sem o apoio de navios tanque, por exemplo”.

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Ele continuou: “O Exercício Joint Warrior se propõe principalmente a desenvolver a interoperabilidade entre as nações que fazem parte da OTAN. O JW é um exercício apenas para navios em condição de adestramento máximo. Agora, diferentemente da Unitas que é essencialmente uma seqüência de exercícios antisubmarino e antisuperfície, aqui o cenário de fundo é constantemente aumentado por ‘fatos reais’ que nos chegam sob forma de notícias de imprensa e informes de ‘inteligência’. Isso faz com que o JW seja, permanentemente percebido pelos tripulantes como um único e imenso jogo de guerra. O JTEPS efetivamente dá aos navios que participam um atestado de que eles podem fazer parte de forças combinadas operando sob o controle da OTAN. Afinal, confiança não é algo que se tenha, é algo que se conquista. Aqui foram doze dias ininterruptos de exercício no mar, onde, por exemplo, nosso helicóptero embarcado voou um total de 26 horas”. Segundo o comandante Capistrano, as maiores dificuldades esperadas, antes da partida, deveriam estar na área das comunicações, da troca de mensagens e nas barreiras ligadas à compreensão dos sotaques/idiomas diferentes dos diversos participantes. “Somos um navio de um país extra-OTAN e não anglófono, seria muito bom podermos ter a oportunidade de praticar comunicações em inglês antes da nossa partida em um simulador de fonia. É evidente que cada vez mais a familiaridade dos operadores de rádio com o inglês será mais necessário. O Exército Brasileiro já está preocupado com isso, e, por isso, conta com um centro de idiomas no Leme (no Rio) para aculturar seus militares.”

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“As marinhas dos EUA, da Dinamarca e do Reino Unido fizeram um esforço muito grande para nos ‘colocar no jogo’, o que foi muito bom para nós. Em termos de procedimentos, o JW foi todo realizado sob as regras e procedimentos ‘Aliados’, usamos o ATP (Allied Tactical Procedures) um conjunto de manuais diferente daquele que se usa na Unitas, o MTP (Multinational Tactical Procedures)”. 

Dentro do processo de absorção dos novos conhecimentos, ele explicou que: “Uma coisa é certa, a Marinha do Brasil está plenamente apta a receber e a trabalhar as informações coletadas por nós no exterior. Os relatórios gerados durante esta comissão serão usados pelas próximas tripulações da MB para facilitar sua preparação para a participação em exercícios futuros deste tipo.” Perguntado se o número de navios participantes pode ser aumentado no futuro, o comandante Capistrano lembrou que o grau de participação da MB, naturalmente, tende a ser proporcional ao numero de missões no exterior que venham a ser realizadas futuramente. Um ponto que certamente poderia servir para aumentar nosso aproveitamento no JW seria a possibilidade de termos um oficial da Marinha do Brasil trabalhando dentro do staff do Joint Warrior” Ele contou também que os britânicos teriam comentado que a Marinha do Brasil foi a única marinha de fora da OTAN a tomar parte do JW nas duas últimas edições deste exercício. “Desta vez deveríamos ter recebido no nosso navio um observador (ship-rider) indiano, mas por alguma razão ele nunca se materializou” emendou o comandante da Defensora.

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Perguntado que dicas ele deixaria para o próximo comandante brasileiro que traga seu navio para o Joint Warrior no futuro, Capistrano disse: “ O JTEPS ocorre duas vezes ao ano, estude bem o cenário para saber compreender as implicações militares de todos os eventos que ‘surgem’ ao longo do exercício, e, olha bem, pois muita coisa acontece! Até fatos do mundo real, coisas imprevistas, acabam sendo informados aos navios por dentro do “mundo” do cenário. Por alguma razão, o navio turco teve que deixar o exercício no meio da operação, se dirigindo para Glasgow. Este fato apareceu numa das matérias publicadas pela “imprensa dragoniana” que foram divulgadas aos participantes do exercício. Outro caso, foi o anúncio dentro do cenário fictício de que, devido a um ‘incêndio em uma de suas salas de máquinas,  a fragata dragoniana (britânica) DS Portland teria que abandonar o exercício e voltar ao porto’. Nenhum comandante aceita sequer brincar com o tema incêndio quando relacionado ao seu navio, o que nos leva a imaginar que pode realmente ter havido um sinistro deste tipo no navio real.”

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“A despeito de estarmos em lados opostos neste cenário, nossa interação com os navios canadenses da ‘Força Multinacional de Paz’ foi mínima. Apenas durante a fase de tiros é que o HMCS Halifax e o HMCS Athabaskan foram vistos à distância, mas sem que houvesse qualquer intenção deles de se aproximar ou interferir na nossa atividade prevista”.

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E finalizando, o Comandante Capistrano perguntou retoricamente “O que o Brasil deseja em termos de capacitação de suas forças armadas? Se, realmente, desejamos nos fazer presentes no Conselho de Segurança da ONU teremos que investir cada vez mais na nossa participação em treinamentos como este.

Conclusão

No final de dezembro fontes da ALIDE no Brasil confirmaram que já havia sido aceito o convite dos britânicos para que a Marinha do Brasil mandasse uma nova fragata para a próxima edição do Joint Warrior, a “JW101”. Esta, coincidentemente, deverá ser uma das maiores Joint Warrior dos últimos tempos. Neste momento entende-se que deve caber à Fragata Independência a honra e o desafio de suceder à Defensora neste importante exercício escocês. Esperamos que as boas lições do Joint Warrior 092 possam ser compartilhadas com cada vez mais tripulações brasileiras e que aumente, cada dia mais, nossa presença em comissões de longa duração no exterior com cada vez mais novos parceiros internacionais.

Last Updated on Saturday, 09 January 2010 19:15
 

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