Keroman - A base nazista de submarinos na França PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Monday, 03 May 2010 00:00


Já na Primeira Guerra Mundial os almirantes alemães já sabiam pelo menos três coisas fundamentais sobre o emprego de submarinos: 1) A nova arma era muito poderosa, tanto na sua letalidade quanto na capacidade de espalhar o terror entre os marinheiros militares e civis do inimigo; 2) A sua maior fragilidade, no entanto, estava justamente nos períodos de manutenção, quando o submarino ficava imobilizado na sua base, à mercê dos ataques aéreos, e, finalmente: 3) As costas oceânicas orientais da Alemanha davam para o Báltico, um mar raso e pequeno, separado do Atlântico pelos estreitos da Dinamarca, detalhe que favorecia fortemente o trabalho dos aviões de patrulha marítima do inimigo.

Logo no início da Segunda Guerra Mundial era justamente no traslado desde as bases alemãs até o Atlântico e no seu retorno da missão que os submarinistas corriam o maior perigo, algo tinha que ser feito para resolver isso. Nesta direção, a invasão do norte da França pelos nazistas, em 1940, foi um passo fundamental para poder levar a guerra às Ilhas Britânicas. Isto, não somente, porque deu acesso à Luftwaffe aos aeródromos que lhe permitiriam bombardear incessantemente os ingleses, mas, porque viabilizou ao Almirante Karl Dönitz levar para oeste, diretamente para o Atlântico, as suas flotilhas de submarinos. A conveniência das novas bases, no entanto, não bastou para proteger seus homens do risco dos ataques aéreos aliados. Resolver esta questão exigiria uma nova solução, curiosamente baseada num dos pontos mais clássicos da guerra: as fortalezas. Agora, não bastavam mais os muros externos serem inexpugnáveis, contra o advento do ataque aéreo, era necessário haver telhados de concreto armado de muitos metros de espessura. Desta forma, qualquer que fosse o tamanho do bombardeio, o trabalho de manutenção no seu interior poderia seguir tranquilamente, sem a ameaça de interrupções. Vários bunkers para submarinos deste tipo foram construídos na França, na Noruega e na Alemanha.

Na França, especificamente, bases de submarinos alemãs com bunkers foram construídas nos principais portos do Atlântico: Brest, Lorient, St Nazaire, La Rochelle, e Bordeaux. A base de submarinos desta última cidade, foi chamada de BETASOM pelos italianos da Regia Marina Italiana, que, lá montaram sua base no Atlântico. A unidade de submarinos italianos estava diretamente subordinada ao Almirante Dönitz, tendo como função patrulhar o oceano ao sul de Lisboa.

Lorient

Quando os U-booten nazistas chegaram a Lorient, a partir de 7 de julho de 1940, seus comandantes achavam que a cidade seria apenas mais um local de reabastecimento e para reparos menores. Mas, com a assinatura do Armistício, tudo mudou. Aproveitando-se do bom porto e do amplo e capaz arsenal de marinha daquela cidade francesa, os alemães resolvem basear ali, de forma permanentemente, seus submarinos. Estes começaram a operar do pequeno bunker para dois submarinos construídos pela Kriegsmarine ao lado do Arsenal, na margem do rio Scorff, afluente do rio Blavet, localizado diante do centro da cidade.

  

Com o primeiro ataque aéreo da RAF à Lorient, em 27 de setembro de 1940, logo se percebeu que aquelas instalações estavam muito aquém do porte, e da proteção, necessário para atender às necessidades da Kriegsmarine e foi dada a autorização para a construção dos três grandes bunkers de Keroman. A nova instalação ficaria a oeste da cidade, numa península delimitada de um lado pelo rio Ter, e, por outro, pelo porto pesqueiro.  Eles foram construídos segundo design dos bunkers de Heligoland, na Alemanha, por mais de 10000 trabalhadores de diversas nacionalidades. Eles trabalharam ininterruptamente, 24 horas por dia, sob a administração draconiana da Organização Todt, a mega-corporação nazista para projetos de engenharia até a conclusão do projeto.

Keroman I, o primeiro grande bunker erigido na cidade, foi projetado para ter cinco “alvéolos” individuais em seu interior, cada um deles dimensionados para acomodar um submarino em manutenção. Sua construção, se iniciou em 2 de fevereiro de 1941, com Keroman II, ainda maior, com sete “alvéolos”,  seguindo-o dois meses depois. Keroman III  teve sua obra iniciada em outubro de 1941, sendo concluída no início de 1943. Em maio daquele ano, o complexo todo já se encontrava plenamente operacional.

 

A despeito de seu porte, medindo impressionantes 120 metros por 85 metros de profundidade por 20 metros de altura, já durante a sua construção estava claro que as dimensões internas de Keroman I não bastariam para acomodar os novos submarinos alemães tipo VII e IX. Por isso Keroman II foi projetado com as mesmas largura e altura, mas teve um profundidade aumentada para 138 metros. Mesmo assim esta alteração ainda não foi capaz de acomodar os novos Tipo IX por isso o último dos bunkers, Keroman III,

O Almirante Dönitz transferiu seu comando para Lorient em XXX tomando para este fim o bucólico castelinho em Karnéval, com seus dois bunkers para proteção do pessoal do comando de submarinos da Kriegsmarine. Segundo os franceses todos os prédios e casas de Lorient foram devastados pelo bombardeiro aliado, apenas três destas construções sobrevivendo. Ironicamente, o Chateau de Dönitz foi uma das três edificações preservadas pela sorte.

 

Operando os bunkers de Keroman

Apenas o Keroman III dava saída para as águas do rio. Existia ali um túnel onde os submarinos entravam navegando e, em seguida, se posicionavam num carrinho sobre trilhos que, então, era tracionado por um guindaste até escalar uma rampa suave que tirava o submarino totalmente para fora da água. Daí em diante, ele seria facilmente transportado entre os diversos compartimentos de manutenção dos três bunkers, via outro sistema sobre trilhos.

Naquela época os submarinos alemães eram muito menores e mais leves do que os submarinos atuais, deslocando em mergulho entre 460 toneladas (o “Tipo II”) e 865 (o “Tipo XII”). Só para se ter um referencial um submarino moderno da classe Tupi (U209) de projeto alemão desloca 1440 toneladas mergulhado.

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Esta base era monumental em todos os aspectos. Cada uma das 24 “garagens de submarinos” (submarine “pens”, em inglês) dispunha de uma ponte rolante para cinco toneladas no teto para permitir a remoção de grandes componentes e motores. Na realidade os “pens” número 23 e 24 dispunham, excepcionalmente, de pontes rolantes muito mais poderosas, capazes de mover até 30 toneladas cada um. Um total de 30 submarinos podia ser acomodado simultaneamente e sofrer manutenção no interior dos bunkers de Keroman.

Os japoneses vão a Lorient

Um dos detalhes mais exóticos da história dos submarinos na segunda Guerra Mundial aconteceu justamente em Lorient. Em agosto de 1942 chegou à base de submarinos alemã o submarino cargueiro japonês I 30 trazendo itens críticos para os nazistas, entre os quais, metais raros e equipamentos ópticos, Os alemães receberam seus colegas do Eixo naquele porto francês com muitas festividades. No entanto, no dia 9 de outubro, já em seu trajeto de volta, o I 30 acabaria sendo afundado próximo a Penang na Malásia.

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O final anunciado

Os ataques dos aviões aliados não tiveram sucesso em destruir ou mesmo danificar os bunkers. Por isso, foi decidido proceder ao bombardeio da própria cidade de Lorient, como forma de tentar privar a base de submarinos de combustível e de suprimentos, obrigando a sua paralisação. A cidade de Lorient permaneceu em mãos nazistas até o fim da guerra em maio de despeito de se encontrar cercada por todos os lados pelo Exército Americano, as tropas alemães acantonadas na base resistiram até a data da capitulação final.1945. A

À época do desembarque aliado na Normandia em 1944 Lorient era a principal base de submarinos alemães, sendo simultaneamente a sede de duas esquadrilhas de submarinos da Kriegsmarine, a 2ª com seus 87 navios e a 10ª com outros 81.

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Em setembro de 1944 a 10ª esquadrilha de submarinos foi dissolvida e a 2ª recebeu ordens de se transferir para Bergen na Noruega, uma base naval ainda longe das mãos dos aliados.

Os submarinos da Marinha Francesa no imediato pós-guerra

A Marinha Francesa assumiu a posse das instalações navais nazistas de Lorient, incluindo o arsenal e os bunkers de Keroman, operando-os continuamente entre 1945 e 1997. Inegavelmente, a infraestrutura local era a melhor equipada para suportar a recriação da força de submarinos da França e, assim, não poderia ser desprezada ou abandonada.

No dia da rendição das tropas alemãs locais, três submarinos se encontravam no interior dos bunkers: o U129, que, completamente desmontado, passava por um processo de manutenção profunda. O U123, por sua vez, se encontrava em excelente estado, com apenas  alguns dos cilindros do seu motor travados, algo simples de ser reparado.  O terceiro, o U55, estava se preparando para deixar Lorient em direção a Bergen, mas não conseguiu partir a tempo de escapar da chegada dos exércitos aliados, sendo imediatamente capturado.

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Diferente dos americanos e ingleses que terminaram a Guerra com grandes frotas de submarinos novos, a Marinha Francesa tinha sido completamente devastada. Encerrado o conflito, a marinha francesa acabou se tornando a arma naval que mais se valeu dos meios nazistas deixados em seu território. Seis U-Boot foram operacionalizados pelos franceses: o “Blaison” (o ex-U123), o “Roland Morillot” (o ex-U2518), o “Bouan” (o ex-U510), o “Millé” (o ex-U471), o Laubie(ex-U766) e o ainda não-batizado ex-U2326. Em novembro de 1946 o Morillot e o U2326 partiram de Lorient para Toulon, sua nova base. Na entrada do Mar Mediterrâneo, uma tempestade violenta fez com que o Marillot tivesse que buscar abrigo num porto espanhol, mas o ex-U2326 não teve a mesma sorte, afundando com toda sua tripulação, sem deixar pistas.

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Os bunkers de Lorient e de Brest passaram as abrigar novas unidades de submarinos francesas. Ao lado destes sobreviventes da Kriegsmarine serviram três submarinos de origem francesa da classe Aurore (La Creole, Africaine e Astrée) construídos antes da guerra e ainda alguns submarinos ex-Royal Navy como o Saphir. Quando a primeira geração de novos submarinos franceses, os Naval, com seus seis navios, foi recebida a partir de 1951, eles seguiram operando desde os antigos bunkers nazistas. Os três modelos leves da classe Arethuse, que vieram depois, jamais foram baseados fora do Mediterrâneo, mas suas versões expandidas, os onze Daphné, operaram em Keroman. Um submarino desta classe, o Flore (S645), foi preservado em Lorient, exibido montado sobre o sistema de movimentação sobre trilhos, existente entre os edifícios K I e K III. Os Daphné foram um verdadeiro sucesso de exportação da indústria naval francesa, totalizando quinze submarinos vendidos novos para Portugal, Paquistão, África do Sul e Espanha (estes últimos construídos sob licença).

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Hoje os bunkers de Lorient e também aqueles nas outras cidades são vistos como verdadeiros elefantes brancos. São feios, caros de manter e não têm mais qualquer utilidade militar. Os submarinos atuais ficaram muito maiores e, assim, não cabem dentro de suas passagens interiores estreitas. Além disso, estes bunkers passaram a ser vulneráveis aos novos mísseis guiados que substituíram nos arsenais militares as bombas de queda livre, contra quais, eles foram concebidos. É claro que, especialmente, na França essas construções, ainda por cima, representam a lembrança permanente de um período doloroso de ocupação estrangeira, então, porque elas seguem existindo? A razão dada durante a nossa visita foi que o orçamento para a demolição de uma estrutura criada para ser resistente às explosões é verdadeiramente monumental. Algumas fontes citam valores até próximos a um bilhão de euros. Se isso for verdade, os colossos de Keroman deverão ficar por lá por muitos anos ainda, sendo lentamente consumidos pela ação dos elementos. Hoje, já se pode perceber, por vários cantos, pequenas rachaduras no concreto exterior, que permitem ver a pesada armação de aço que dá rigidez ao edifício. Como testemunho da qualidade de engenharia de seu projeto, apenas uma única rachadura fina no teto exterior de Keroman III pode ser atribuída ao efeito do impacto das bombas aliadas durante a guerra.

Na sua última fase, operavam dentro dos bunkers duas unidades distintas. A primeira era a unidade operacional dos submarinos da classe Agosta, os últimos submarinos convencionais de ataque da Marinha da França, e a área de manutenção da DCAN (Direction de Construction Navale – antecessora da atual DCNS).

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 Ao lado dos bunkers, hoje se encontra o edifício de arquitetura pós-moderna da “Cité de La Voile” (Cidade da Vela), criada por Éric Tabarly, um famoso velejador tão importante na França quanto Torben Grael e Amyr Klink são aqui no Brasil. Este é um centro cultural multimídia com museu, simulador de vela, livraria e restaurante, um local ideal para semear nos jovens visitantes o amor pelo mar e pela vela.

Visitando Lorient e os bunkers de Keroman como turista

Esta cidade francesa fica localizada na região da Bretanha, uma grande península no noroeste da França. A natureza marítima desta comunidade deriva diretamente da ampla boca do Rio Blavet onde pescadores e mercadores do mar ao longo dos séculos encontraram aqui um local adequado para acomodar seus navios em segurança. De carro ela fica a cerca de 500 Km de Paris, um passeio de cinco horas pelas boas auto estradas francesas.

A cidade também é, servida pelo aeroporto regional de Lann-Bihoué, para onde se pode voar diretamente desde Paris-Orly. Este aeródromo abriga, também, uma base aeronaval onde, no Esquadrão 24F, operam alguns dos bi-motores brasileiros EMB-121 Xingú da Marinha da França. Além deles, esta unidade também opera os patrulheiros de ZEE (Zona Econômica Exclusiva) Falcon 50 SURMAR. Já no Esquadrão 4F, estão os aviões de esclarecimento (AWACS) embarcado E-2C Hawkeye, e no 23F, os patrulheiros Atlantique NG. Se você vier a Lorient de avião, fique de olhos bem abertos e leve sempre sua câmera na mão com você dentro do avião.  

A cidade conta com uma boa rede de hotéis que atendem às demandas do estaleiro da DCNS e das universidades locais. Como forma de preservar a língua e a cultura peculiar daquele local, as placas da cidade sempre mostram os destinos em duas línguas: bretão e francês. É impressionante ver como os dois idiomas não aparentam ter absolutamente nada em comum um com o outro. “Keroch” , “Kervern”, “Kergantic”, “Keryvon”, “Lannenec”, “Coat Coff”, “Locmiquelic”, Riantec”... Qualquer leitor de “Senhor dos Anéis” certamente se sentiria em casa nesta região de origem celta. Lorient apresenta um ambiente com nomes surpreendentemente “exóticos” de onde, a priori, seria esperada, unicamente, a previsibilidade e a familiaridade da cultura francesa. 

 

Last Updated on Wednesday, 05 May 2010 14:01
 

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