Sinergia na defesa entre Brasil e Austrália, uma entrevista com o Embaixador do Brasil em Canberra PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Tuesday, 08 May 2012 00:00

 


O mercado de produtos de defesa global está cruzando um período de grande turbulência. Cortes de orçamentos militares ocorrendo após o final da Guerra Fria colocam pressão para que executivos das indústrias produtoras de armamentos deixem seus mercados tradicionais e tenham que ganhar o mundo para tentar não perder receita de uma forma que lhes possa ser crítico. Um destes destino são os países dos BRICS: Brasil, Rússia, Índia e China que em sua expansão geopolítica crescente acabam se aproveitando desta época de vacas magras. Além dos BRICs, há outro país que se encontra num ciclo de forte investimento nas suas forças armadas, a Austrália. Para tentar entender qual o grau de sinergia que potencialmente existe entre o Brasil e Austrália, entre nossas indústrias de defesa e nossas duas forças armadas, falamos com o nosso embaixador na capital australiana Canberra, Rubens Antonio Correia Barbosa

ALIDE: Existe algum programa dentro do Itamaraty para atrair a Austrália mais para perto do Brasil, economicamente falando, para além das tradicionais áreas de mineração e turismo?

RACB: Existe um Plano de Ação política, firmado em Nova York, intitulado Memorando de Entendimento entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da Austrália para o Estabelecimento de Parceria Reforçada,  o qual pretende ser documento base para elevar as relações a novo patamar. A partir desse documento, dois memorandos de entendimento foram firmados, em 15 de dezembro de 2010, um sobre cooperação em terceiros países e outro sobre cooperação em mega eventos desportivos. Ambos já estão sendo implementados: o primeiro em projeto de implantação de cisternas no Haiti, para coleta e aproveitamento da água da chuva e outro mediante a participação australiana no trabalhos envolvendo a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Rio.

ALIDE: A Embaixada costuma recebe solicitações de realização de palestras na academia Australiana sobre a inserção de nossas FFAA dentro da política externa do Brasil?

RACB: Não. O estabelecimento militar australiano não tem feito esse tipo de solicitação. Já o Australian Institute of International Affairs, assim como Universidades de toda a Austrália costumam apresentar pedidos nesse sentido com frequência.

ALIDE: O Sr poderia descrever como se deu a interação do Brasil e da Austrália, tanto no plano político/diplomático, quanto no militar, no processo de estabilização do território do Timor Leste após o referendo que selou sua independência?

RACB: Brasil e Austrália, dentro de suas possibilidades têm procurado cooperar com o país irmão de Timor Leste sempre que possível, em todas as áreas solicitadas. Parece-me que o Brasil encontra maior sentimento de confiança junto ao governo do Timor Leste, dada a facilidade de língua e o passado brasileiro livre de iniciativas colonialistas. Não me parece seja o mesmo caso da Austrália, que foi o único país a formalmente aceitar a ocupação daquele país pela Indonésia. Hoje, Brasil e Austrália admitem trabalhar conjuntamente em projetos de cooperação em Timor-Leste.

ALIDE: Existe qualquer programa em andamento para a troca de cursos para oficiais brasileiros e australianos nas escolas de formação militar do outro país?

RACB: Tenho conhecimento de que vagas são periodicamente oferecidas a militares do outro país para estágios em instituições militares. Nada posso adiantar sobre os avanços eventualmente alcançados nessa área.

ALIDE: A Embaixada em Canberra ainda não dispões de Adidos de Defesa. O Sr acha que com o advento da Estratégia Nacional de Defesa, e seu foco renovado na exportação de produtos da nossa Indústria de Defesa, não haverá uma tendência a se aumentar estes postos na Austrália e pelo mundo?

RACB: Creio que esclarecimento específico sobre o assunto deveria partir do Ministério da Defesa. Cabe lembra que a eventual ausência de adidâncias não é por si só impedimento a qualquer avanço nas relações na área de defesa entre países específicos.

ALIDE: A Embaixada costuma receber solicitações das FFAA australianas para conhecer melhor os programas das nossas FFAA e os produtos da nossa Indústria de Defesa?

RACB: Isto não vinha acontecendo. Entretanto, a partir desta semana fui informado do interesse de representantes da área de defesa da Ausrália de vir a participar no Riocentro, em abril de 2013, da Feira  LAAD Defence and Security. É intenção congregar grupo de entre 10 e 15 empresas australianas dessa área para participar naquela mostra.

ALIDE: Austrália e Brasil têm algum espaço comum para compartilharem suas políticas e experiências em missões de manutenção da Paz sob a égide da ONU?

RACB: Os dois países têm cada vez mais experiência no setor, cabendo, creio eu, decisão política no mais alto nível nesse sentido. No que diz respeito à ONU, a Austrália realiza no momento empenhada campanha para voltar ao Conselho de Segurança, em eleições marcadas para outubro deste ano. A Austrália, ao contrário do Brasil, dele está ausente desde 1986.

ALIDE: O Sr acredita que o Brasil, por ter um perfil bem menos "intrusivo" na política externa do que a maioria das atuais potências globais, tenha potencial para se desenvolver na Austrália como um importante parceiro na indústria militar?

RACB: Os dois países são as duas maiores economias do hemisfério sul. Caberá, talvez, um pouco mais de ousadia política para aprofundar e fortalecer a relação. Creio que o fortalecimento da relação bilateral também na área de defesa é uma questão de tempo.

ALIDE: Existe alguma janela perspectiva de realizarmos operações militares conjuntas regulares com a Austrália da maneira como já realizamos com nossos vizinhos na Atlasur e com África do Sul e Índia no exercício naval trilateral IBSAMar?

RACB: Caberia, sobre este ponto, consultar também o Ministério da Defesa. Não há como a diplomacia avançar em assuntos tão delicados e específicos sem o entendimento prévio entre as Partes especialmente envolvidas.

ALIDE: Existe algum plano, que o Sr tenha conhecimento, para que empresas de defesa brasileiras participem de trade shows setoriais na Austrália e que empresas australianas façam o mesmo no Brasil?

RACB: Além da resposta parcial dada acima a esta questão, destaco que a cidade de Geelong, próxima a Melbourne, a segunda cidade da Austrália, realiza a cada ano, em maio, feira aeronáutica que em algumas versões já contou com a participação da Embraer, cujo regresso seria bem-vindo.

ALIDE: Recentemente, várias empresas de defesa australianas acabaram sendo absorvidas por grandes grupos europeus e americanos, ainda existe oportunidade para empresas brasileiras adquirirem participação nas empresas de defesa locais?

RACB: Teoricamente isto é muito possível, respeitadas as regras para ingresso de investimento estrangeiro neste país. Não tenho, entretanto, conhecimento de empresa brasileira atualmente interessada no assunto. Há que se levar sempre em conta, também, os altos custos de produção e mão de obra na Austrália.

ALIDE: Neste momento em que a indústria de defesa ocidental passa por uma fase de profundos cortes o Brasil casa de se encontrar na contra mão deste processo, tirando do papel diversos programas de modernização que estavam ha anos estagnados. A indústria australiana de Defesa tem procurado a nossa Embaixada para acompanhar mais de perto o que se passa no Brasil?

RACB: Até o momento, não recebi qualquer manifestação local de interesse nesse sentido.

ALIDE: Um dos programas militares australianos de maior visibilidade é o chamado SEA 1000 que prevê a construção de 12 novos submarinos diesel-elétricos de longo alcance, até certo ponto bastante semelhantes ao requisito que gerou o nosso modelo S-BR que em breve entrará em construção no novo estaleiro em Itaguaí. Já houve qualquer interesse declarado dos australianos de conhecer melhor o nosso programa ProSub?

RACB: Não. O programa australiano, aliás bastante atrasado, prevê substituição de submarinos da classe Collins. Deverão ser construídos 12 novos, possivelmente na própria Austrália, em Adelaide. A orientação militar australiana, inclusive no que diz respeito a equipamento, segue quase integralmente a norte-americana, de modo que a ausência de interesse não chega propriamente a causar surpresa.

ALIDE: Durante o desenvolvimento do programa nuclear da Marinha o Brasil foi alvo de um sem número de entraves e embargos por outros países. Aparentemente, a imprensa australiana, ao considerar a possibilidade da marinha local obter, por compra no exterior, alguns submarinos de propulsão nuclear, acha que tal solicitação não geraria qualquer tipo de restrição das potências ocidentais. A imprensa local está "perdida" neste tema? Ou a Austrália é realmente diferente do Brasil, um país tão mais "confiável" que não se aplicariam a ele quaisquer restrições ligadas à não-proliferação nuclear?

RACB: A aliança militar existente com os EUA e a Nova Zelândia, que completou sessenta anos em 2011 dá efetivamente certa confiabilidade extra à Austrália, que participou das duas guerras mundiais junto às forças aliadas, lutou no Vietnam, no Iraque e ainda está no Afeganistão. Acresce que, apesar das consideráveis reservas de urânio de que dispõe, a Austrália tem resistido a vender o minério a países não signatários do TNP. Além disso, a população do país manifesta-se contra o uso da energia nuclear inclusive para fins pacíficos neste país.

ALIDE: O Sr enxerga possibilidades de sinergia entre os dois países nesta área de construção de submarinos?

RACB: Acredito que algo nesse gênero será possível se houver efetivo interesse dos respectivos estabelecimentos militares.

 

Last Updated on Tuesday, 08 May 2012 01:27
 

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