A atual Indústria Naval Russa PDF Print E-mail
Written by Felipe Salles   
Thursday, 17 November 2011 23:20

 

 

 

Na nossa viagem à Rússia, ALIDE pretendia ir além das aparências exteriores e mergulhar no mundo real que se esconde por trás do brilho dos "holofotes" da grande feira IMDS. Para tanto, tratamos de visitar os principais "bureaus" de projetos navais e estaleiros de São Petersburgo. Queríamos mostrar aos nossos leitores onde, exatamente, se encontra a indústria naval russa atual e quais suas perspectivas futuras em relação, principalmente, às demandas do reequipamento militar brasileiro.

Classe Moskva
Classe MoskvaClasse Moskva
Classe Ivan Rogov
Classe Ivan RogovClasse Ivan Rogov
Classe Ivan Tarawa
Classe Ivan TarawaClasse Ivan Tarawa
Admiral Gorshkov/Classe Kiev
Admiral Gorshkov/Classe KievAdmiral Gorshkov/Classe Kiev
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov

No Brasil, a indústria de defesa russa, a despeito de sua imensa variedade de produtos e soluções, ainda se encontra relegada a suprir exclusivamente certos nichos muito específicos e sempre em pequena escala. Este fato é um efeito direto de dois processos distintos, de resquícios ainda não extirpados do nosso pensamento "anti-soviético" do período da Guerra Fria e das incertezas que pairaram sobre a indústria de defesa após a queda da URSS. Em serviço na FAB e no Exército se encontram os "Iglá", os mísseis antiaéreos MANPADs (portáteis para os soldados de infantaria) e na FAB os helicópteros de ataque Mi-35 (aqui chamados de "AH-2 Sabre").

No nosso mundo naval, essa presença russa é ainda menor, mas o ano de 2011 marcou a estréia das empresas russas na disputa pelo novo, e discreto, programa ProNAe. Este programa, que se seguirá aos mais conhecidos ProSub e ProSuper, visa a encontrar uma empresa estrangeira que auxiliará os projetistas da MB no desenho de seus dois novos navios aeródromos que complementarão e, posteriormente, substituirão o NAe São Paulo em serviço. Além dos russos, disputam este contrato os franceses (DCNS), ingleses (BAE Systems), americanos (Gibbs & Cox), italianos (Fincantieri) e espanhóis (Navantia).

Com esta aproximação em vista, ALIDE pediu para visitar o Bureau Nevskoye responsável pelo projeto de todos os navios aeródromos, porta-helicópteros e grandes navios anfíbios da União Soviética e posteriormente da Rússia.

 

MiG29K
MiG29KMiG29K
YaK141
YaK141YaK141
Kamov Ka25
Kamov Ka25Kamov Ka25
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov

Os Navios Aeródromos russos

 

Se a marinha americana desde os anos vinte considerava a sua frota de Navios Aeródromos como um elemento central de sua estratégia de presença global, a Marinha Soviética, por diversas razões, foi obrigada a seguir por outros rumos. Em primeiro lugar, as ameaças externas que se apresentavam muito provavelmente viriam de terra. Para agravar a situação, a União Soviética, excluindo-se o Oceano Pacífico no leste remoto do país, tinha suas costas banhadas por três mares pequenos e facilmente bloqueáveis (Mar Negro, Oceano Ártico e Mar Báltico). Finalmente, justamente no seu período de maior crescimento geopolítico, a economia soviética estava fortemente engajada na reconstrução das grandes áreas do país que foram destruídas pelos nazistas durante a "Grande Guerra Patriótica", deixando poucos recursos para sistemas bélicos caros como NAes.  Foi, no entanto, para contornar a ameaça representada pelos submarinos ocidentais que nasceram os primeiros navios de convés de voo grande na Frota Vermelha. O projeto 1123 "Kondor" foi concebido como um cruzador pesado de guerra antisubmarina. Ele seria, essencialmente, uma base flutuante para as operações dos helicópteros Kamov Ka-27 Hormone. Este ainda não era um porta aviões clássico, mas muitos dos elementos dos modelos posteriores apareceriam pela primeira vez aqui. Esta classe pioneira gerou apenas dois navios, o "Moskva", lançado em 1965 e colocado em operação em 1967, e o "Leningrad", que foi lançado em 1968 e entrou em serviço em 1969. O hangar destes navios ficava à ré da superestrutura e podia acomodar apenas dois dos helicópteros de cada vez, para sua manutenção e reparos. A despeito de contar com uma grande planta a vapor, esta classe apresentava uma velocidade máxima e sustentada, além de um comportamento marinheiro, aquém do desejado. Por isso, ela não foi fabricada em maiores números. Operacionalmente, no entanto, eles chegaram a operar no Mar Mediterrâneo, participando da desminagem de Suez em 1974, e no Oceano Índico onde visitaram Bangladesh.

Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov

O passo seguinte dos soviéticos teria sido o fruto do programa "Oriol"/1153 ("águia", em russo) para criar um navio-aeródromo convencional de 75/80.000 toneladas e catapultas a vapor que seriam capazes de lançar uma ala aérea de até 70 aeronaves, numa ala aérea combinada de MiG-23 e Su-25 navalizados. Por seus altos custos, e, principalmente, pela substituição do Almirante Grechko pelo Marechal Ustinov no comando do Ministério da Defesa Soviético, o programa Oriol acabou sendo cancelado. A idéia da Marinha de operar um porta-aviões de design clássico só seria retomada vários anos depois.

Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Kuznetsov
Classe KuznetsovClasse Kuznetsov
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon

Se o Oriol era grande e caro demais, a Marinha Soviética acabou ficando com um compromisso, o programa Kiev. A nova classe foi composta por quatro navios deslocando entre 43,000-45,500 toneladas batizados de Kiev, Minsk, Novorossiyrsk e Baku. O Baku (nome da capital do país agora-independente Azerbaijão) teve seu nome trocado para Admiral Gorshkov em 1991, até que ele ser finalmente vendido à Índia e rebatizado de Vikramaditya. Os três primeiros navios desta classe foram retirados de serviço em bloco no ano de 1993, sendo vendidos como sucata metálica. Os dois primeiros terminaram na China e o terceiro na Coréia do Sul. Esta classe era mais do que apenas uma plataforma ASW, ela introduzia impressionantes capacidades antinavio de longo alcance (mísseis Granit) lançados verticalmente além de uma pista lateral completa para a operação de 12-13 aeronaves de decolagem vertical Yak-38 e 14-17 helicópteros Ka-27/29 Helix.

Esta classe teve uma vida operacional curta, sendo vitima direta dos duros cortes de verbas do período pós-soviético. Mas, em paralelo, o sonho do grande navio aeródromo seguiu vivo.

Monumento ao centenário do Rubin
Monumento ao centenário do RubinMonumento ao centenário do Rubin
Monumento ao centenário do Rubin
Monumento ao centenário do RubinMonumento ao centenário do Rubin
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon
Bureau Rubin
Bureau RubinBureau Rubin
Bureau Rubin
Bureau RubinBureau Rubin

Almirante Kuznetsov

Frustrados com a inviabilidade econômica de se construir um grande Navio Aeródromo de propulsão nuclear, a Marinha Russa partiu para um novo programa para substituir os Kiev, um navio com uma rampa instalada na proa semelhante àquela usada nos CVS britânicos da classe Invincible, como forma de aumentar o peso máximo de decolagem dos caças embarcados dispensando a instalação de catapultas a vapor como as usadas pelos NAEs  americanos. O primeiro navio desta nova classe, que desloca 58.600 toneladas a plena carga, o Admiral Kuznetsov, foi equipado com caças supersônicos Su-33, um variante naval da família de caças pesados Flanker. Em termos de capacidade bélica, o Su-33 é infinitamente mais poderoso que os antigos jatos VSTOL Yak 38 Forger empregados nos navios da classe Kiev. Em russo, o sistema "ski-jump" é conhecido pelo nome de "tramplina" (trampolim). Para enganchar os caças no pouso, ele apresenta três cabos cruzando o convés. O Kuznetsov leva normalmente cerca de 52 aeronaves entre caças e helicópteros, além dos mísseis antinavio pesados P-700 Granit (OTAN: SS-N-19 "Shipwreck") instalados verticalmente perto da proa sob o convoo. Na filosofia de operações russa, os Granit constituem a primeira onda de ataque contra Grupos Tarefas navais inimigos e devem ser disparados antes mesmo dos primeiros caças serem lançados. Ironicamente, devido aos acordos de desarmamento assinados com os EUA, os russos tiveram que reduzir o alcance dos sistemas Granit. A despeito de seu design e de sua função, em razão de acordos de passagem por estreitos controlados por outros países, como os de Bósforo e Dardanelos na Turquia, dentro da Marinha Russa estes navios são chamados de "cruzadores pesados armados de mísseis e transportadores de aeronaves", e não simplesmente de "Navios Aeródromos" como seria de se esperar. Além disso, como na documentação interna de classificação de navios da Marinha Soviética não dispunha de uma classificação para Navio Aeródromo, teria sido mais simples apenas chamar os navios de "cruzadores".

Classe Delfin
Classe DelfinClasse Delfin
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon
Classe Typhoon
Classe TyphoonClasse Typhoon

Além disso, o Admiral Kuznesov é equipado com uma formidável defesa de mísseis antiaéreos e sistemas antisubmarino. O gêmeo do Kuznetsov haveria de se chamar Variag ("Viking"), mas acabou cancelado antes de ser entregue. A Ucrânia, onde fica o Estaleiro Nikolayev Sul que o construía, acabou vendendo o casco incompleto do Variag para a China, onde ele foi completado e onde realiza agora seus primeiros testes de mar.

O CVN (Navio Aeródromo de propulsão nuclear) Ulyanovsk

Após estes dois navios, o plano da Marinha Soviética previa a construção de um navio ainda maior, inspirado nos planos do OREL, o Ulyanovsk teria propulsão nuclear e deslocaria mais de 80.000 toneladas, mas a URSS chegou ao seu ocaso, e acabou condenando este projeto logo no início de sua construção. Conceitualmente, o Ulyanovsk seria um compromisso. Ele teria duas catapultas a vapor na sua pista lateral para lançar as aeronaves AWACS Yak-44, verdadeiros clones do Grumman E-2 Hawkeye americano, e um grande skijump na pista alinhada com a proa para os Su-33 Flanker. O fim da URSS e a separação da Ucrânia fez com que o pouco do navio que já se encontrava em construção no Estaleiro Nikolayevskyi, acabasse sendo jogado fora. Hoje se especula que as plantas do Ulyanovsk teriam sido vendidas aos chineses junto com o casco do ex-Variag, abrindo a possibilidade que estes possam ainda colocar este projeto em construção uma vez mais.

Os Navios Anfíbios Pesados

Em paralelo aos programas de navios aeródromos, o Bureau Nevskoye desenvolveu também o navio de desembarque anfíbio pesado da classe 1174 (também conhecido no ocidente como classe Ivan Rogov). Estes navios tinham doca, garagem para blindados e veículos e ainda um hangar capaz de abrigar seis helicópteros Kamov Ka-27. Os helicópteros operam desde dois convôos independentes, um localizado adiante, e outro, à ré da superestrutura. O convés de tanques mede 54m x 12,3m com o acesso dos veículos sendo realizado pelas grandes portas de proa. A doca à ré mede 67,5m x 12,3m. O navio é capaz de transportar um batalhão de fuzileiros navais (520 homens e 25 blindados). Alternadamente ele pode levar um total de 53 carros de combate ou ainda 80 blindados de transporte de tropa. Três navios desta classe foram construídos pelo estaleiro Yantar entre 1976 e 1990: o Ivan Rogov, o Aleksandr Nikolaev e o Mitrofan Moskalenko, este último, sendo o único ainda em operação na Marinha Russa. Contrastando com a filosofia ocidental de confiar a defesa dos navios anfíbios aos navios de escolta ao seu redor, na Marinha Russa os navios da classe Ivan Rogov eram surpreendentemente bem armados. Eles tinham um lançador para foguetes de saturação de 122mm Grad-M, dois lançadores quádruplos de mísseis antiaéreos Strela-3M (OTAN: SA-7 "Grail") e dois lançadores singelos de mísseis Osa (OTAN: "Gecko") além de um canhão duplo de 76mm AK-726DP e quatro torretas com canhão de defesa aproximada antimíssil de 30mm hexa-cano AK-630.

Nas décadas de 70 e 80, o Bureau Nevskoye trabalhou no projeto que se seguiria aos Ivan Rogov. Este seria o Projeto 11780, um navio ainda maior, com doca e convés corrido. Apelidado de "Ivan Tarawa" pelos observadores ocidentais, este modelo apresentava muitas semelhanças com o LHD americano da classe Tarawa.

Entrada do museu do Estaleiro do Almirantado
Entrada do museu do Estaleiro do AlmirantadoEntrada do museu do Estaleiro do Almirantado
Busto de Pedro, o Grande
Busto de Pedro, o GrandeBusto de Pedro, o Grande
Galé de Pedro I
Galé de Pedro IGalé de Pedro I
''Submarino'' de 1720
''Submarino'' de 1720''Submarino'' de 1720
Navio a vapor
Navio a vaporNavio a vapor

Dois destes navios de desembarque pesados chegaram a ser encomendados (seriam o Kremenchug e o Kherson), mas eles nunca foram completados.

O Bureau Nevskoye

A despeito da imensa descentralização da indústria naval por todo o extenso território russo, inegavelmente São Petersburgo ainda se mantém como a "capital" da indústria naval russa. Essa indústria nasceu na cidade concomitantemente com a sua fundação sob o comando de Pedro, o Grande, nos idos de 1703. Inclusive, um grande número das pontes metálicas que unem as ilhas da cidade foram feitas pelos estaleiros aqui localizados, antes mesmo de se dar a partida no programa de reconstrução da esquadra imperial.

Fundado em 1931, o Bureau Nevskoye é o mais antigo bureau de design de navios de superfície. Segundo o panfleto de divulgação do Bureau, mais de 300 navios foram construídos a partir de seus projetos, sua fabricação ocorrendo em 16 diferentes estaleiros espalhados por todo o território da antiga URSS. Os primeiros projetos do escritório foram destróieres, cruzadores, navios de patrulha e navios varredores. Antes da Segunda Guerra Mundial, o Cruzador Leve Kirov e outros navios do "Project 20" foram construídos a partir de designs do Bureau. Em 1943, se iniciou o projeto do que seria o primeiro Navio Aeródromo [NAe] soviético, mas com o fim da guerra, dois anos depois, o programa foi cancelado.

Corveta Vityaz
Corveta VityazCorveta Vityaz
Pedro, o Grande (1869)
Pedro, o Grande (1869)Pedro, o Grande (1869)
Encouraçado Gongut
Encouraçado GongutEncouraçado Gongut
Plataforma circular flutuante
Plataforma circular flutuantePlataforma circular flutuante
IndNavRussa40
IndNavRussa40IndNavRussa40

Anos depois, aqui também foram projetados os navios de apoio ao programa espacial das classes Sibir, Chazma e Kosmonaut Vladimir Komarov. Além de conceber o projeto e desenhar as plantas, o Bureau tem uma função de consultoria/supervisão da obra de construção, trabalhando junto ao construtor até a conclusão dos testes de mar envolvendo todos os sistemas do navio.

Adicionalmente aos navios, o Bureau recentemente desenvolveu uma solução completa para o treinamento dos pilotos navais russos em terra. Na base aeronaval de Saki, na Ucrânia, foi instalado um ski-jump completo projetado pelo Bureau Nevskoye que permite aos pilotos em formação experimentarem a decolagem no "trampolim" por diversas vezes antes que venham ter que fazê-lo "a vera" no meio do oceano. Nesta base, existem ainda sistemas de frenagem por cabos e catapultas. Aqui também é onde se treina o pouso, com o piloto se guiando pelos espelhos do sistema ótico de pouso. Após a independência da Ucrânia, a base de Saki passou a ser alugada para a Marinha Russa até que uma nova base venha a ser construída em território russo. Neste momento, está sendo feita uma base parecida com a de Saki na cidade indiana de Goa para permitir a operação dos novos MiG-29K pela Marinha da Índia. O treinamento a bordo é realizado usando o Su-25UTG/UBP, um variante embarcado do atacante subsônico "Frogfoot".

O Bureau Nevskoye ostenta orgulhosamente o nome do Rio Neva para mostrar os seus 40 anos de ligação com a sua cidade. Localizado no extremo ocidental da grande Ilha Vassilievsky, a sede do bureau ainda hoje claramente espelha os anos de abandono e desorganização que se seguiram ao colapso da União Soviética. Uma estrutura de concreto construída em algum ponto das décadas de 60/70, com design absolutamente "genérico", o prédio se encontra parcialmente ocioso e esvaziado. A grande redução no número de pessoal do Bureau derivou diretamente da falta de um programa estatal de construção naval militar russo consistente até aqui. Mas o governo russo sabe que seu maior trunfo neste segmento não são os prédios, nem as demais construções centenárias, mas sim o conhecimento acumulado nas cabeças de seus engenheiros e técnicos da construção naval. ALIDE foi recebida no Bureau por um grupo que incluía Kiryl Zagorodniy, Designer-Chefe, e Igor Pavlushchik, Diretor.

Crusador Avrora
Crusador AvroraCrusador Avrora
Bars (1914)
Bars (1914)Bars (1914)
IndNavRussa43
IndNavRussa43IndNavRussa43
Varredor Vega TK-93
Varredor Vega TK-93Varredor Vega TK-93
IndNavRussa45
IndNavRussa45IndNavRussa45

O Bureau Nevskoye está preparado, segundo seus executivos, para embarcar num novo programa de desenvolvimento de navio aeródromo de nova geração com propulsão convencional ou nuclear, conforme seja o desejo da Marinha Russa e se as possibilidades econômicas do país permitirem. "O período de paralisação de projetos do Bureau sem dúvida vai gerar alguns problemas, vejam as dificuldades que os franceses tiveram ao construir o seu Charles de Gaulle tantos anos depois [da construção do Foch e do Clemenceau]..." Citou o Projetista-chefe com um sorriso.

Perguntados sobre a escolha entre usar catapultas a vapor convencionais ou das novas versões eletromagnéticas, os russos insistiram que "todos os caças modernos têm tanta potência excedente nas suas turbinas que a catapulta nos NAes caminha para a irrelevância". Outro ponto colocado pelos engenheiros russos era de que para poder operar regularmente na catapulta, os caças precisam ser bastante reforçados, o que "implica numa estrutura mais rígida e, consequentemente, mais pesada adicionando mais ineficiência à escolha do uso de catapultas no NAe. [No Kuznetzov] os MiG-29K e o Su-33 decolam com 'full payload', sem quaisquer restrições de peso." Alide perguntou qual a velocidade mínima de vento no convés para isso poder acontecer, ao que se respondeu: "2m/s, ou cerca de 20 nós. Na realidade a velocidade do vento relativo é um parâmetro mais crítico para a realização de um pouso logo após a decolagem, estando o avião ainda completamente carregado de armamento e cheio de combustível. Além do mais, a experiência operacional americana aponta claramente para o fato de que normalmente estas decolagens mais pesadas tendem a ocorrer muito mais no período da noite, onde a temperatura ambiente, naturalmente, será sempre mais baixa do que durante as horas do dia. “Mas se o cliente assim desejar nós já temos a 'Mayak' ['Farol', em português], uma catapulta a vapor 100% desenvolvida, apenas aguardando um cliente".

Sobre a questão da propulsão eles acreditam que: "em navios com deslocamento abaixo dos 70.000 toneladas, o navio aeródromo não precisa ser nuclear". Conjugando os dois temas, ele completou dizendo que os navios modernos não têm mais necessidade de dispor de vapor para mover seus diversos sistemas, assim, ter uma planta de vapor exclusivamente para impulsionar a catapulta não é uma proposta eficiente, ou mesmo interessante. A nova tecnologia de catapulta eletromagnética (mais conhecida pela sigla em inglês EMALS) para os engenheiros do Bureau Nevskoye ainda se trata de algo bem arriscado, "não sabemos quando o sistema EMALS estará pronto, ou mesmo, se será confiável [num ambiente tão exigente e agressivo como o meio do oceano]. A França e os Estados Unidos talvez tenham que correr consideráveis riscos com esta tecnologia. Por exemplo, uma das perguntas críticas a serem resolvidas é que tipo de interferência eletromagnética o sistema EMALS provocará nos principais sistemas do navio e nos das aeronaves embarcadas: radar, guerra eletrônica, etc?

Classe K-2 (1936)
Classe K-2 (1936)Classe K-2 (1936)
Barcaças do cerco a Leningrado
Barcaças do cerco a LeningradoBarcaças do cerco a Leningrado
Flutuador
FlutuadorFlutuador
Navio Patrulha
Navio PatrulhaNavio Patrulha
IndNavRussa50
IndNavRussa50IndNavRussa50

"Pra nós, os ski-jumps já resolvem todos os problemas operacionais de hoje, isso sem falar de que sua simplicidade ainda libera muito espaço útil dentro do casco do navio. Se no futuro a tecnologia eletromagnética se provar uma opção viável, será bem simples remover a estrutura metálica do 'trampolim' e instalar o sistema EMALS. Mas este não é um processo banal, ao contrário, nos CVNs americanos toda a sua parte elétrica terá que ser reprojetada para poder acomodar o aumento de potência demandado pelo novo sistema. Na Rússia, estamos naturalmente estudando aceleradores eletromagnéticos para um número variado de aplicações, mas, não necessariamente, para catapultas de NAe.

Confrontados com o argumento popularmente aceito de que uma dos maiores problemas no design de um Navio Aeródromo moderno reside na preparação para que todos os sistemas operem adequadamente tendo em vista a caótica interferência eletrônica dos diversos emissores e receptores de radiofrequência existentes no navio e nas suas aeronaves embarcadas, os representantes do Bureau Novskoye explicaram que atualmente este tipo de análise é na imensa maioria das vezes resolvida com simuladores digitais, sem que seja necessária a construção de edifícios em terra que reproduzam as geometrias e as distâncias e alturas nas quais as antenas ficarão no navio real. No entanto, contrariamente às alegações dos russos, os ingleses na sua classe Type 45, os franceses na Fremm e até mesmo chineses no programa de conclusão do ex-Variag acabaram por seguir por este caminho do "mundo real", se não em substituição, pelo menos em adição às simulações digitais prévias.

O Designer Chefe contou que: "com os indianos temos exatamente este tipo de experiência [demandada pelo Brasil,] de prestação de consultoria. A legislação técnica e industrial russa é muito estrita no que diz respeito ao controle de qualidade da construção e o Bureau supervisiona a qualidade tanto na fase do projeto como no da construção no estaleiro. Nós organizamos e auxiliamos na realização dos testes de atracação, dos testes de mar do fabricante, dos testes de aceitação e de comissionamento e até mesmo dos testes do cliente final para a aceitação do navio pela Marinha Indiana.

Voltamos recentemente do estaleiro localizado na cidade de Kochi onde está sendo construído o 'Indigenous Aircraft Carrier' - o Navio Aeródromo de Projeto Indiano. Neste programa, nossa única tarefa é cuidar do sistema de operação de aeronaves, já que o casco completo eles realizaram com os italianos [Fincantieri]. Agora, é sempre complicado participar em apenas uma parte do programa. Se tudo for responsabilidade de uma única empresa, a responsabilidade pelo sucesso é só dela. [Se, ao contrário, for feita uma opção por 'espalhar' o risco com múltiplos fornecedores] o cliente precisa entender que ele é que no final assumirá todo este risco. Tendo isso em mente, nós estamos, sim, prontos para participar em todo, ou apenas em uma parte, do programa ProNAe brasileiro".

Os especialistas em projetar submarinos: Bureau Rubin

Os submarinos foram a principal arma escolhida pelos soviéticos para tentar fazer frente ao acachapante poderio material combinado da US Navy e das Marinhas da OTAN no pós-guerra. Na indústria russa, nenhum Bureau de projetos está mais ligado ao desenvolvimento de submarinos do que o Rubin de São Petersburgo. A reunião ocorreu numa sala de reunião do Hotel Neptun, edifício construído num terreno pertencente ao Bureau. Prova de que na época das vagas magras, qualquer possibilidade de geração renda, por menos relacionada que ela estivesse do seu "core business", não podia ser desperdiçada.

Transportador fluvial de passageiros
Transportador fluvial de passageirosTransportador fluvial de passageiros
Crusador Alksandr Nevskiy
Crusador Alksandr NevskiyCrusador Alksandr Nevskiy
Crusador Alksandr Nevskiy
Crusador Alksandr NevskiyCrusador Alksandr Nevskiy
Quebra Gelo Otto Schmidt
Quebra Gelo Otto SchmidtQuebra Gelo Otto Schmidt
Quebra Gelo nuclear ''Lenin''
Quebra Gelo nuclear ''Lenin''Quebra Gelo nuclear ''Lenin''

Esta indústria aqui é uma iniciativa coletiva de longa data. O primeiro submarino russo de combate foi fabricado em 1901. Ao longo dos anos muita coisa mudou no Bureau Rubin, milhares de projetistas se formaram, trabalharam aqui a vida toda e eventualmente se aposentaram, deixando um legado de mais de 1000 submarinos construídos das quatro Esquadras (Norte, Báltico, Mar Negro e Pacífico) por todo o território russo a partir de projetos do Bureau Rubin. Até a segunda Grande Guerra, apenas o Bureau Rubin projetava submarinos na Rússia/União Soviética. Daqui saíram diversos modelos de submarinos diferentes e hoje surgem os projetos dos submarinos russos que representam o "estado da arte" desta indústria: o sub de ataque de propulsão não-nuclear da classe "Amur" e o Yury Dogolrukiy, submarino de propulsão nuclear, lançador de mísseis nucleares (SSBN) da classe "Borei". A exportação de submarinos soviéticos do Bureau se iniciou em meados da década de 50 e até hoje não houve qualquer cancelamento pelos clientes. "Nossos submarinos navegaram por todos os mares" disse com orgulho Andrei Baranov o projetista-chefe do Bureau.

Atualmente o modelo "Kilo" é o seu grande sucesso de exportação, com 10 unidades em operação na Índia, 12 na China, quatro na Argélia e três no Irã. Segundo ele, o Bureau Rubin se encontra trabalhando ativamente com as suas marinhas clientes para realizar os reparos e as modernizações que permitam que estes submarinos estejam em operação daqui a 10 anos no mínimo e ainda em boas condições táticas. Mas como a tecnologia nunca para, o novo submarino "Amur" consegue ser mais compacto e ter níveis de ruídos inferiores aos de seu antecessor, o modelo "Kilo". O modelo SSK conhecido popularmente como "Lada" é, unicamente, a versão para a Marinha Russa do novo design "Amur". Perguntado se o mercado para exportação de submarinos russos estava se fechando diante da pressão primariamente de franceses e alemães e proximamente de chineses, o executivo respondeu que "os 'campos' não são separados por barreiras tão rígidas assim. Os países que desejam comprar submarinos, normalmente, estão dispostos a falar com todos os competidores". Os únicos reais limitadores para a exportação sendo às sanções da ONU. A Rússia não tem qualquer barreira à exportação de submarinos. Nós queremos fazer negócios, estamos prontos a tratar o fornecimento com qualquer país.  Naturalmente o estaleiro não pode sair vendendo submarinos para qualquer país, existem trâmites legais que devem ser cumpridos, como a obtenção das licenças de exportação governamentais. Cabe à Rosoboronexport a organização do processo comercial para evitar conflitos.

Perguntados de como tinha caminhado a conversa até aquele momento com o Brasil, Baranov respondeu que: "Os contatos diretos foram limitados até aqui. A primeira conversa ocorreu em 2005, durante a LAAD. Fomos ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, primeiramente com uma delegação de alto nível, o que abriu as portas para a realização de uma apresentação sobre os submarinos da classe Amur realizada por uma delegação técnica. Eu fiz parte desta delegação e saímos muito bem impressionados com o nível técnico dos engenheiros militares brasileiros. A atitude dos brasileiros para conosco foi muito aberta e agradável, a despeito de a concorrência pelo fornecimento dos submarinos se encontrar no seu auge com uma profunda presença no Brasil das indústrias alemã e francesa. Sabemos que em negócios como este o plano político é muito importante, e o governo brasileiro estava decidindo com que país seria prioritários se associar naquela negociação. A prova disso nos ficou evidente quando na visita à Rússia dos engenheiros e técnicos brasileiros o clima havia mudado e aquela era apenas uma visita formal, uma 'despedida'. Em 2006, parecia haver um interesse sincero pelos produtos e tecnologias russas. Dois anos depois, a despeito das gentilezas expressadas, o clima 'frio' das conversas nos permitiu sentir claramente que um acordo já havia sido fechado com os franceses," e ele continuou: "Estava diferente, no começo o Brasil demonstrava interesse por todo os aspectos dos nossos navios, incluindo o seu armamento. Nós entendemos que um dos itens mais atraentes para a Marinha do Brasil seria o sistema de mísseis, antinavio e contra alvos em terra, da família Klub. Naquele ponto a expectativa era que os submarinos seriam construídos nas próprias oficinas do AMRJ [onde quase todos os submarinos da classe Tupi nasceram]. A evolução da idéia em direção à construção de uma novo estaleiro e base de submarinos nos parece algo natural, mas, naquele momento, nós não ouvimos nada deles nesta direção. Se fosse um requerimento formal do Brasil, isso em nada atrapalharia a preparação da nossa proposta. No Vietnam, por exemplo, nosso contrato é muito complexo e estamos envolvidos na realização de todas as construções operativas. Coisas deste tipo podem ser discutidas e ofertadas caso o cliente os deseje.

Vladimir Dorokhin entrou na conversa destacando que: "Os franceses têm interesse numa relação de longo prazo com a Marinha do Brasil, exatamente como ocorre na Índia, em Mumbai. Os edifícios construídos pelos franceses só servem para os seus produtos, não para os submarinos russos ou alemães. Na Índia, os franceses passaram por inúmeros problemas, o que gerou atrasos e naturalmente incorreu no aumento do custo de fabricação. Longe de mim questionar a capacidade técnica dos franceses, mas este tipo de histórico deveria ser sempre levado em conta pelo comprador. O Brasil quer mais submarinos, se houver o interesse na diversificação e eles quiserem considerar outros modelos, os franceses farão o possível para torná-los dependentes. É por isso que as novas base e estaleiro serão feitos sob medida para os Scorpène. 'It's a business'!

Baranov, o projetista-chefe, retomou a conversa contando que em termos de suporte pós-venda "todos os padrões internacionais foram implementados na indústria russa. Não tivemos que reinventar nada de novo. Nosso catálogo de peças é eletrônico, a nossa logística é global, com processo de entrega de peças acelerada [“expedited" em inglês], cronogramas de manutenção regular, etc. Estamos prontos para seguir estes processos de acordo com os mais elevados padrões internacionais".

Navio Tanque
Navio TanqueNavio Tanque
Saratov
SaratovSaratov
Submarino Científico
Submarino CientíficoSubmarino Científico
Submarino Científico
Submarino CientíficoSubmarino Científico
Syevyer-2
Syevyer-2Syevyer-2

Perguntado sobre qual o grande destaque, a vantagem competitiva, da atual linha de submarinos convencionais russa, a Amur, eles responderam: “A característica mais importante em qualquer submarino é o seu nível de discrição [Stealth]. Os atuais submarinos da classe Kilo já apresentam uma baixíssima assinatura em termos de ruído, eles são verdadeiro 'buracos negros', com um ruído menor que o do próprio no fundo do mar. Os Lada/Amur têm um nível de ruído ainda menor do que o dos Kilo. Sendo assim, nossa missão primária como designers é garantir o máximo silêncio possível dentro d'água, em seguida vem a extensão do período mergulhado, e para isso usamos o sistema AIP [Air Independent Propulsion - Propulsão Independente de Ar]. Com a tecnologia AIP nós podemos aumentar a autonomia em mergulho do  submarino entre 2 e 2,5 vezes, quando comparado aos submarinos tradicionais, aqueles sem AIP. Nosso sistema AIP só é menos desenvolvido ainda que os sistemas francês e alemão devido ao fato de não termos nenhum submarino com este sistema em operação ainda, mas em breve chegaremos lá. Nós sabemos avaliar boas soluções tecnológicas, por isso não existe necessidade de copiarmos soluções estrangeiras. Utilizaremos nossas próprias soluções baseadas no emprego de células de combustível [fuel cells]. Pretendemos criar hidrogênio a partir da reformação de vapores diesel, uma estratégia que nos permitirá alcançar o nível de desempenho já alcançado pelos demais países. As células de combustível são o sistema mais silencioso que existe, não dependemos mais do hidrogênio armazenado em tanques a bordo, podemos fabricar, no meio do mar, todo o hidrogênio que precisarmos. Os franceses só dispõem da solução MESMA, talvez seja por isso que o Brasil não decidiu-se por usar o sistema AIP nos seus submarinos. Apenas a Marinha do Paquistão usa o sistema MESMA, e não a própria Marinha Francesa. A decisão do Brasil por operar uma frota de submarinos de propulsão nuclear resolve, no entanto, a questão do alcance ilimitado. Países com submarinos de propulsão nuclear tendem a não se interessar por tecnologias como a AIP. O líder da tecnologia AIP, por exemplo, é a Alemanha, que não usa submarinos nucleares. Quando ALIDE perguntou se a opção por não adquirir AIP não se deveria mais ao amplo Oceano Atlântico, totalmente desobstruído, localizado diante das nossas costas, os russos disseram que "O tamanho do oceano é sempre uma questão importante. Quando apresentamos o Amur à MB os seus engenheiros gostaram de ver o seu longo alcance, comparado com os demais modelos europeus. Os submarinos nucleares de ataque (SSNs) completam, não competem com os submarinos convencionais. Os SSN são, no entanto, muito mais caros e exigem uma infraestrutura de apoio em terra muito maior. Os SSN são mais eficientes quando eles operam no meio do oceano. Como o Brasil tem uma longa linha costeira a sua defesa é melhor realizada usando-se submarinos convencionais. Tendo isso em mente, a estratégia para o emprego de submarinos da Marinha do Brasil faz todo o sentido para nós".

Neste ponto Dorokhin comentou que: "Na minha opinião, o fato da DCNS não estar oferecendo o sistema MESMA ao Brasil admite que esta não é uma solução boa o suficiente para atender a todos os requerimentos da MB. Pelo que soubemos , os primeiros Scorpène indianos não receberão o sistema MESMA na construção, provavelmente, apenas os últimos submarinos é que o receberão".

Mapa do Estaleiro
Mapa do EstaleiroMapa do Estaleiro
Navio Controle de Tráfego Espacial
Navio Controle de Tráfego EspacialNavio Controle de Tráfego Espacial
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Submarino Foxtrot
Submarino FoxtrotSubmarino Foxtrot
Submarino Whale
Submarino WhaleSubmarino Whale

"O uso conjunto destas duas tecnologias tornam nossos submarinos muito eficazes. O terceiro item, naturalmente, seria o armamento mais moderno, devido a isso temos agora novas missões para os nossos submarinos. Eu diria que o nosso armamento é, justamente, a maior razão para o sucesso de exportação dos nossos submarinos. Nossos submarinos lançam torpedos filoguiados, mísseis de cruzeiro e antinavio, além de revolucionários torpedos-foguete supercavitantes VA-111 Shkval".

Baranov retomou a explicação enfocando na questão de transferência de tecnologia para o Brasil e outros clientes: Na nossa perspectiva a nossa indústria trabalha primariamente para nossa própria Marinha, assim sendo, alguns equipamentos só podem ser fornecidos como "caixas pretas". Mas a grande maioria dos equipamentos de um submarino podem ser construídos em outros países. E muitos deles desejam este maior grau de independência técnica e operacional. A Transferência de Tecnologia (ToT) é uma parte integral dos nossos contratos. Estamos sempre dispostos a considerar requerimentos de fabricação no exterior, transferência de tecnologias e até mesmo transferência do trabalho de design e projeto. Com isso o cliente poderá desenvolver suas próprias competências tecnológicas no futuro.

O Estaleiro do Almirantado: um legado tricentenário

"Histórico" é um adjetivo pálido para descrever o Estaleiro do Almirantado (Admiralteyskie Verf, em russo). Comemorando neste ano seu 307° aniversário, os executivos do Estaleiro, fundado pelo próprio Pedro, o Grande, sabem bem que, fora eles, poucos construtores navais podem sequer tentar igualar um número como este. O primeiro navio com 54 canhões foi entregue já em 1709. Pedro o Grande, nem todos sabem, além de Imperador da Rússia era também funcionário do Estaleiro. Desde então foram fabricados mais de 2600 navios nesta localidade. Em 1724 o Estaleiro construiu um protótipo de um submersível com seis metros de comprimento para operações subversivas como a colocação de minas nos cascos dos navios inimigos, isso 75 anos antes do seu primeiro equivalente americano. Este projeto era tão secreto que as plantas e documentos só foram divulgados 100 anos depois. A partir de 1815 se iniciou a construção de navios a vapor aqui. No meio do século XIX a estrutura da cúpula dourada da Catedral de São Isaque, um dos principais cartões postais de São Petersburgo, foi construída no Estaleiro. O cruzador Avrora preservado como navio museu em São Petersburgo [XXX link] foi construído aqui 111 anos atrás. Entre os maiores exotismos da história naval russa se encontra uma plataforma circular flutuante criada para criativamente contornar as restrições do Tratado de Paris de 1856 que estipulava que o Mar Negro seria um "território neutro sem navios de guerra ou canhões nas suas fortificações costeiras". Cada uma destas plataformas, era equipada com dois canhões de 280mm (embora aquelas construídas no estaleiro Nikolayev na Ucrânia tivessem dois canhões de 300mm). Outro navio histórico fabricado pelo Almirantado foi o "dreadnought" de 1909 "Gangut", que durante sua manutenção em 1925 foi renomeado "Oktyabrskaya Revolutsiya", a "Revolução de Outubro" assumindo sua nova carreira como símbolo comunista e servindo até o ano de 1956. Cada um dos canhões de 305mm deste navio conseguia disparar nada menos que 24 tiros por minuto. Um terço dos submarinos soviéticos da Segunda Guerra foi fabricado no Estaleiro. Sob o sítio nazista a Leningrado padeceu sem água, sem comida e sem eletricidade e o Estaleiro do Almirantado não interrompeu sua produção de submarinos. Neste período também foram construídos barcaças de transporte para tentar trazer suprimentos via os vários canais que ligam o Golfo da Finlândia com a Região do Mar Branco bem mais ao nordeste da cidade sitiada.

O Estaleiro do Almirantado emprega 6500 profissionais, 100% dos cascos é feito aqui, incluindo toda a tubulação e a cablagem elétrica. É diferente da Europa, onde muitos destes serviços são terceirizados com empresas externas ao estaleiro. Aqui apenas a instalação dos equipamentos elétricos e a pintura são terceirizadas.

Na Rússia, a máxima que diz que serviços simples vão para estaleiros simples e serviços complexos para os mais desenvolvidos em termos de pessoal e meios aparentemente não se aplica. Diversos tipos diferentes de navios e submarinos foram construídos aqui, mas, nos últimos anos, o foco maior tem sido por um lado em navios cargueiros de grande porte para emprego civil, quase sempre equipado com proa quebra-gelo que é uma expertise particular de design dos estaleiros russos e, por outro, submarinos supersilenciosos de propulsão "não-nuclear".

Estrutura produtiva do Foxtrot
Estrutura produtiva do FoxtrotEstrutura produtiva do Foxtrot
Submarino Viktor III
Submarino Viktor IIISubmarino Viktor III
Submarino Alfa
Submarino AlfaSubmarino Alfa
Classe Kilo
Classe KiloClasse Kilo
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IndNavRussa70IndNavRussa70

Fruto direto do programa "Convertsya" para substituição de produção militar por outra civil, o Estaleiro iniciou-se na produção de navios-tanque comerciais. Para poder operar sem sustos nas frígidas bordas do Oceano Ártico, os navios e plataformas de petróleo russos precisam ser construídos de forma muito peculiar, com uma resistência do casco capaz de garantir sua navegação no meio do gelo de até 50cm de espessura. Estes navios têm duplo casco e o casco externo é bem mais espesso do que o que se usa nos navios tanque normais. Adicionalmente, todos os sistemas do navio são projetados para operar constantemente em temperaturas de -40° centígrados.

Em 1997, sob encomenda da Empresa Lukoil Arctic Tanker o estaleiro construiu cinco navios de 20.000 toneladas DWT. Estes navios foram todos entregues até 2002. Entre 2003 e 2008, oito navios petroleiros de 47000 toneladas DWT foram construídos para a empresa comercial russa Sovcomflot. Os dois navios de 70.000 toneladas entregues em 2010 para a Sovcomflot transportam petróleo das plataformas de offshore no Ártico até o terminal petroleiro de Murmansk.

Além destes grandes navios o Estaleiro constrói ainda rebocadores-bombeiros feitos para operar no Ártico e quebra-gelos de grande porte movidos a propulsão nuclear, como o pioneiro "Lênin" de 1959 e o mais recente "50 let Pobeda, de 2007". Com a exceção do último modelo de navio-navio tanque encomendado, todos os demais navios de superfície foram projetados pela equipe interna do próprio Estaleiro.

Para a Marinha Soviética e depois para a Russa, o Estaleiro do Almirantado construiu mais de 300 submarinos, desde a classe Bars de 1915. Destes, 41 eram submarinos de propulsão nuclear. A linha em produção mais recente foi a dos submarinos do Projeto 636, mais conhecidos pelo seu apelido OTAN, "Improved Kilo". Oito destes foram fabricados para a Marinha Chinesa e outros dois para a Marinha da Argélia.

Antes dele, no estaleiro, foram ainda construídas 10 unidades dos Kilo originais (Projeto 877) para a Marinha da Índia e outras três para a Marinha islâmica Iraniana. O Improved Kilo agregou a capacidade de disparar mísseis de cruzeiro anti-navio Club-S, passou a utilizar um sistema de combate completamente novo e usa novas baterias com uma vida operacional de cinco anos. Recentemente, uma encomenda de seis submarinos 636 foi feita pela Marinha do Vietnam, dando uma perspectiva de vários anos de produção ainda neste segmento. Por sua vez, muitos dos submarinos Kilo originais já foram atualizados pelo Estaleiro do Almirantado com estes novos sistemas. No seu auge, o Estaleiro fabricava cinco submarinos da classe Foxtrot por ano, sendo entregues, no final, um total de 75 submarinos desta classe com propulsão convencional. Como atestado da qualidade de seu projeto e construção, na Índia os submarinos da classe Foxtrot/641 estão sendo preservados como monumentos após sua retirada de serviço.

O mais recente submarino a ser entregue pelo Estaleiro é o modelo "não-nuclear" de quarta geração "Sankt Petersburg" (B-585), primeira unidade da nova classe "Lada", em 24 de abril de 2010. Neste momento, ainda existe a expectativa do anúncio da construção de submarinos para a Venezuela. "A delegação da Marinha do Brasil que nos visitou demonstrou interesse pela nova linha de submarinos compactos "Piranya" com 1000 toneladas de deslocamento", revelou Baranov.

"O Bureau Rubin é o maior projetista de submarinos da Rússia. Durante a construção, nós cooperamos bem de perto. Eles nos entregam a documentação técnica e em seguida monitoram o progresso da construção. Eles nos entregam as plantas e o mock-up digital no sistema CAD é feito aqui mesmo no Estaleiro," explicou Gleb Emelchenkov, Chefe do Departamento de Engenharia do Estaleiro "como as chapas podem encolher durante o corte, o programa de 'nesting' [a distribuição otimizada das diversas peças da estrutura o navio dentro das chapas] é feito também aqui no Estaleiro". No caso dos submarinos cada um dos estaleiros que constroem a série Kilo, por exemplo, monta os seus submarinos de uma forma própria, levando em conta, principalmente suas próprias capacidades técnicas particulares, não existindo uma única "receita de bolo".

Além dos submarinos de emprego militar, aqui foram construídos também nada menos que 68 submersíveis de exploração e de resgate em grandes profundidades. Os clientes destes sistemas são a Marinha Russa e o RosGidroMet, o Centro de Hidrometeorologia da Rússia. Até hoje, nenhum destes submarinos foi exportado pela Rússia.

O Estaleiro do Almirantado, hoje em dia, fica praticamente dentro do perímetro urbano da cidade. Muitos de seus edifícios e galpões têm toda a pinta de edifícios da virada do século 19 enquanto outros parecem saído de campus de universidade federais brasileiras, com um certo grau de abandono evidenciado por salas vazias, e corredores com lâmpadas queimadas ou faltando. São símbolos claros, tanto da longa história do Estaleiro, como da realidade vivida sob o período soviético e, finalmente, da grave crise que adveio do colapso da URSS. O site conta atualmente duas carreiras abertas, dois atracadouros cobertos para navios de até 100 de comprimento e outros dois atracadouros cobertos para 120 metros.

O futuro do Estaleiro, agora como parte integrante e importante da holding estatal OSK,  aponta para a construção de um outro estaleiro do Almirantado. Esta nova unidade foi anunciada em dezembro de 2010 em parceria com o grupo sul coreano STX, na Ilha Kotlin, onde fica a cidade de Kronstadt. Este projeto está conectado diretamente à seleção dos navios franceses de múltiplos propósitos da Classe Mistral, selecionados para serviço na Marinha Russa. Estes dois navios (potencialmente, quatro) serão os primeiros navios de projeto não-russo a serem usados pela marinha local desde a Segunda Guerra Mundial. Quarenta por cento dos cascos dos Mistral será feito na Rússia, serão doze blocos localizados à ré, em cada navio. O novo estaleiro deverá concentrar futuramente a fabricação de grandes navios de guerra e de navios comerciais de até 300.000 toneladas. "Esta nova unidade industrial visa a atender a perspectiva de crescimento da demanda, interna e externa, por novos navios tanques árticos, já que no segmento dos navios tanques 'genéricos' poucos países podem querer ter chance de competir com a indústria sul coreana," disse Vladimir Ragosim, Tecnologista-Chefe do estaleiro do Almirantado: "O aquecimento global sozinho levará ainda muito tempo para permitir a operação no extremo norte de navios tanques não preparados para navegar no meio do gelo", completou ele. O site atual tem encomendas garantidas para até 2018, mas negociações estão em andamento para o fechamento de novos pedidos. A parte da construção de submarinos acaba de receber um importante upgrade para permitir a construção dos novos modelos Amur/Lada de 4a Geração.

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Submarino Lada
Submarino LadaSubmarino Lada
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Parte do casco do submarino Alfa
Parte do casco do submarino AlfaParte do casco do submarino Alfa

"Em termos de tecnologia, uma das classes mais revolucionárias que construímos no nosso Estaleiro foram os 'Alpha', um modelo com casco todo em Titânio, muito automatizado, com uma tripulação tão enxuta que praticamente só tinha oficiais na tripulação, apenas o cozinheiro era um praça. Este modelo alcançava a vertiginosa velocidade de 42 nós debaixo d'água, tendo um deles sido cronometrado a 45 nós durante cinco segundos. “Em comparação, é importante lembrarmos que um torpedo normalmente raramente passa dos 33 nós!” disse Bóris Veresov com um sorriso satisfeito: “a alta velocidade não implicava em falta de manobrabilidade neste projeto. Ele conseguia realizar uma curva de 180° em apenas 45 segundos. A própria US Navy jamais teve um submarino que sequer chegasse perto desta classe de desempenho.

Severnaya Verf: a "ovelha desgarrada"

Este importante estaleiro tem a peculiar característica de pertencer ao grupo privado OPK e não ao governo russo como desejaria a holding estatal de construção naval OSK.

O "Estaleiro do Norte" fica em São Petersburgo, e no ano de 2012 completará seu centenário. Em 1929 foi aberta uma filial nova fabrica mais dedicada aos produtos comerciais. Desde 1959, em pleno período soviético, o Severnaya se especializou na construção de destróieres e fragatas. De seus diques saíram 16 destróieres da classe "Skoryy", doze da classe Kotlin, além de quatro e cinco unidades, respectivamente, das classes Kanin e Kashin. Entre 1969 e 1990 nada menos que 32 fragatas da classe Krivak foram feitas pelo estaleiro e mais recentemente, 21 destróieres da classe Sovremenniy (Projeto 956) saíram dele, quatro dos quais para a marinha chinesa. A última entrega para a Marinha Russa ocorrendo em 1994. "O Severnaya foi um dos poucos sobreviventes da crise dos anos 90", contou a ALIDE seu diretor XXX. "A crise foi muito dura, vendemos dois navios quase completos como sucata. A salvação foi o contrato para a venda deste modelo para a Marinha Chinesa, um navio no estado da arte, em tudo equivalente aos destróieres da classe Spruance norte americana. Comparado com o canhão de 127mm do americano nossos navios tinham um de 130mm, capaz de acertar alvos a cerca de 25 milhas de distância, dando 60 tiros por minuto, e isso sem falar do míssil antinavio pesado Moskit, que não tem semelhante em nenhum navio americano. É uma tecnologia incrível! Entre 1998 e 2000, nós construímos dois deles para a China usando segmentos que já estavam construídos para navios cancelados da Marinha Russa. Nas provas de mar, os chineses ficaram muito satisfeitos com a qualidade e com as datas de entrega dos navios. Em 2002, outras duas unidades do modelos "956EM", com aumento do espaço interno para uso de dois helicópteros,  foram adquiridos pela Marinha da China num segundo lote. De 2000 em diante, a Marinha Russa retomou seus pedidos de navios escolta colocando um requerimento de quatro unidades da corveta Steregushchiy do projeto 20380 (anteriormente conhecido como 2038.0), duas das quais entregues, uma delas estando em exibição nesta edição do Salão IMDS. A variante desta classe destinada à exportação é chamada de '20382', a diferença se restringindo a alguns pontos do armamento. O sistema de defesa aproximada 'Kashtan' da Marinha Russa é substituído pelo sistema 'Redut' na unidade a ser exportada, mas as dimensões principais dos navios são rigorosamente as mesmas. A superestrutura é feita de material composto, visando a seu emprego em ambientes litorâneos.

Para operações em águas azuis, já batemos a quilha de duas fragatas da nova classe '22350' (classe Admiral Gorshkov) de cerca de 5000 toneladas, das quais já temos mais quatro encomendas para a Marinha Russa.

O modelo de exportação desta classe é conhecido como o 'projeto 22356', e o Brasil bem que poderias ser um cliente para ela [dentro do seu programa Prosuper]. Se nós estivéssemos participando desta concorrência este seria o modelo ideal. No ano que vem o primeiro navio desta classe já estará em operação. Cinco das corvetas já estão em construção e em breve mais quatro de uma versão um pouco melhorada (a '20385') devem ser encomendadas. O Design Bureau Severnaya que projetou a fragata classe Gorshkov foi fundado há 65 anos dentro do Estaleiro Severnaya, por isso eles trabalham tão bem juntos. Comentando sobre o último grande programa de construção naval soviético, na década de 70, com o Ministério da Defesa sob o Almirante Gorshkov, o Diretor do Estaleiro disse que "naquela época, o ritmo era muito intenso, com seu Estaleiro construindo entre 6-7 navios comerciais e entre 2-3 navios militares por ano. Navios dos Projetos 1135 (as fragatas classe Krivak) e 1155 (destróieres classe Udaloy) foram fabricados por todos os estaleiros. Naquela época, a Marinha Russa era poderosa, não apenas por seus navios, mas, principalmente, pelos seus marinheiros". Perguntado sobre a posição do Severnaya sobre a construção por blocos estruturais, ele comentou que a aceleração da construção produzida pelo sistema de blocos reduz significantemente o custo de produção. A lucratividade existente na construção de casco de navios é pequena, mas via o uso de blocos, a construção do casco e superestrutura toma 36 meses enquanto a instalação e configuração do armamento levam outros 24 meses. Os sistemas de ar condicionado, por exemplo, são pré-instalados nos blocos, que variam de tamanho de acordo com uma série de variáveis. A corveta mede 105 metros de comprimento. No nosso estaleiro o bloco pode medir até 60m e pesar até 5000 toneladas. Um 'transbordador' (sistema sobre trilhos) é capaz de movimentar os blocos com facilidade, posicionando-o na carreira para sua finalização e lançamento no mar via um dique flutuante. Estas carreiras acomodam navios medindo no máximo 120m por 21m, são cobertas, aquecidas, e em nível (não inclinadas). Os navios são construídos dentro das carreiras até chegarem a 80-85% de sua conclusão, faltando, basicamente, a instalação dos mastros e das antenas (cabos elétricos não resistem bem à exposição ao frio de São Petersburgo). O dique seco comporta navios cargueiros ("bulkcarriers") de até 120.000 toneladas. No Estaleiro Severnaya a medida ideal das chapas de aço é de 8m x 2m. O Estaleiro tem uma área de 100 hectares ainda dentro da cidade, mas em uma zona industrial com disponibilidade de uma ferrovia e armazéns alfandegados, existe ainda acesso conveniente ao Golfo da Finlândia, o que simplifica a colocação dos navios na água para a realização das provas de mar antes da sua entrega ao cliente. Após a modernização prevista para o Estaleiro nos próximos anos será possível a construção de navios militares de qualquer porte, com a exceção de Navios Aeródromos (NAe). Um segmento que a empresa pretende desenvolver é a construção de navios transportadores de GNL (gás natural liquefeito), um segmento de alto valo agregado.

OSK: Finalmente uma visão centralizada e um novo rumo adiante

O maior stand da exposição IMDS pertencia à holding United Shipbuilding Corporation. Para entender como que essa entidade criada apenas em 2007 pretende influenciar o crescimento da indústria naval russa, ALIDE entrevistou Alexey Kravchenko, seu Secretário de Imprensa.

Efusivo, Kravchenko é um "jovem veterano" da diplomacia soviética e russa. Fluente em espanhol por ter morado por muitos anos em Cuba, sua linguagem corporal contrastando radicalmente com a dos entrevistados anteriores, que o tempo todo demonstraram alguma insegurança por estarem provavelmente a reboque dos eventos que devem transformar suas vidas profissionais de forma completa no futuro. A segurança de carreira e a rígida subordinação dos mais novos aos mais antigos, característica basilar do período soviético, parece ter evaporado de baixo dos pés deles. Alexey Kravchenko se veste e se porta como um típico executivo comercial de uma corporação ocidental, passando uma confiança inabalável sobre tudo o que o governo russo pretende que virá a acontecer adiante na indústria naval russa. "Nossa indústria conseguiu sobreviver a hiatos desde o período da 'glória marítima' até aqui. A Corporação Unida de Construção Naval (OSK na sigla em russo ou USC na em inglês) é a proprietária das ações de setenta estaleiros e bureaus por todo o país. Durante esse intervalo houve demissões e aposentadorias, com o 'renascimento' se dando apenas no ano 2000 dentro da administração Putin. Desde então temos pedidos para a Marinha Russa e para clientes de exportação, com a importantíssima, do ponto de vista tecnológico, retomada do desenvolvimento de submarinos de propulsão nuclear. Lá pelos idos de 2005/2006 ficou claro para o governo que seria necessário injetar bilhões de dólares para manter a indústria em crescimento. O tamanho das frotas militares da Rússia encolheu, de quarenta submarinos de propulsão nuclear no auge da URSS passamos a ter apenas quinze hoje. Muitos destes submarinos foram retirados de serviço e desmontados dentro de programas financiados por outros países. A Rússia entendeu que o tema segurança nacional não se encerra apenas em navios militares, mas que isso inclui ainda alguns tipos-chave como quebra-gelos, navios-tanque e plataformas feitos para operar no ambiente ártico. No nosso extremo leste, o fornecimento para o Japão de gás natural liquefeito dos poços existentes na península de Kamchatka e na Ilha de Sacalina garantirá uma grande e sustentada demanda por navios transportadores de GNL russos. Além disso, a URSS tinha uma das maiores frotas pesqueiras do planeta, desde então quase todos estes navios migraram para bandeiras de conveniência e isso abre uma janela de oportunidade imensa para sua reconstrução. Como você pode ver a saída é clara, temos que inserir nova tecnologia na indústria para garantir que ela seja competitiva globalmente. A United Shipbuilding Corporation está em crescimento contínuo, em 2007 éramos compostos por 30 estaleiros e 9 bureaus de projeto. Quatro anos depois, já somos 32 estaleiros e 14 bureaus, a despeito deste sucesso sempre nos lembramos que existem perto de 3500 estaleiros na China e  outros 1400 na Coréia do Sul. Sabemos, por isso, que nos principais segmentos da construção naval comercial não há como nos tornarmos competitivos contra Coréia do Sul e China. Em navios de 200.000 a 300.000 toneladas, por exemplo, nosso custo tende a ser, ao menos, 30% maior do que o dos estaleiros chineses, assim, pretendemos trabalhar unicamente em segmentos-nicho".

"Em 2010, existiam 150 navios (civis e militares) e submarinos em construção nos estaleiros do grupo OSK". Contou satisfeito o secretário de imprensa da OSK.

"Ontem [28/06/2011] o nosso novo sistema de mísseis nucleares balísticos lançados de submarino realizou seu oitavo disparo com sucesso. Esta será a arma que equipará os novos submarinos de mísseis balísticos da classe Yury Dolgorukiy. Neste ano ainda, os dois primeiros submarinos desta classe (de 4ª geração) serão entregues à Marinha Russa. Como você pode ter notado nesta edição da IMDS, fizemos um concurso entre designers civis para suscitar idéias para navios do futuro. Dentro da OSK existe agora um 'espírito de criação' no ar.

Em termos de receita, a OSK tem dado sinais muito positivos ao estado russo. No ano passado, ela alcançou um faturamento de 4,5 bilhões de dólares, com um crescimento em relação ao ano anterior de 27%. Kravchenko, no entanto, explicou que no momento eles estão envolvidos em complicadas negociações para trazer os estaleiros do grupo privado OPK para dentro da estrutura nacional unificada da OSK estatal. "Estes estaleiros foram 'privatizados' de qualquer maneira na década de 90 e agora os atuais donos dos estaleiros Severnaya Verf' e Baltiskyi Zavod estão pedindo valores muito altos para ativos cujos meios de produção foram severamente depredados nos últimos anos. Trinta e dois bilhões de rublos, investidos nas empresas do Banco Central da Rússia, foram roubados pelos atuais administradores destes estaleiros". "Recentemente faliu o Mezhprombank Bank, que era então o principal ativo da United Industrial Corporation, que é a dona dos estaleiros Severnaya Verf e Baltiysky Zavod e do bureau Iceberg Central Design. Nosso receio é de que essa crise corporativa comprometa a capacidade desses estaleiros de atender às demandas da Marinha Russa", comentou Roman Trotsenko, CEO da holding estatal OSK.

Para o futuro, o porta voz da OSK comentou ainda sobre o programa do novo estaleiro em construção na Ilha de Kotlin, junto com a STX: "Vamos construir navios tanque e transportadores de GLP, além das plataformas, todos estes com capacidade de operar com um mínimo de restrições no Ártico. Temos também um programa similar com a Daewoo coreana na costa do Pacífico, perto de Vladivostok, além de termos  adquirido 50% das ações do estaleiro Arctech Helsinki Shipyard, na Finlândia, em sociedade com a STX Finland Cruise Oy.

Conclusão

Em 2009, com apenas 39 anos, Roman Trotsenko, um executivo de fora da indústria de construção naval, mas com alguma experiência anterior no segmento quando dirigiu o Moscow South River Harbor e a Moscow Inland Shipping Company, tomou posse como o mais recente presidente da OSK. Ele, com sua juventude, seu status de 'outsider' e seu alinhamento completo com a cartilha empresarial ocidental e principalmente sua fidelidade ao tradicional centralismo do poder da Rússia, fazem dele um perfeito ícone da mudança ensejada pelo governo atual. Se esta "revolução administrativa" do setor naval, imposta com veemência pelo governo Putin “de cima para baixo” vai dar bons resultados no longo prazo, ainda não dá para saber. Mas para o observador externo não há como ignorar que as "estruturas estão tremendo" na indústria naval russa, que novos produtos tecnologicamente avançados estão deixando os estaleiros e que as exportações começam a reaparecer. É um modelo de transformação industrial profunda, que já foi implementado anteriormente com surpreendente sucesso na indústria aeronáutica russa. Grandes incertezas assombram muitos dos funcionários da indústria, mas todos sabem que, isso, sob qualquer ótica ainda é bem melhor que o caos administrativo/governamental vivido nos anos Yeltsin. Boa sorte, Sr. Putin!

Last Updated on Wednesday, 21 December 2011 00:18
 

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