| Dr. Jairo Cândido da FIESP fala com ALIDE |
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| Escrito por Felipe Salles |
| Qua, 20 de Janeiro de 2010 14:30 |
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A Federação das Empresas do Estado de São Paulo (FIESP) é uma das mais importantes, politicamente ativas e influentes associações civis do país. Recentemente portavozes da FIESP tem repetidamente declarado à imprensa que a indústria paulista tem uma opinião e que por isso deve ser ouvida e consultada na hora de adquirirmos novos e modernos sistemas de Defesa. O primeiro programa de defesa concluído com grande e clara participação da FIESP foi a compra pelas forças armadas brasileiras de 51 helicópteros de médio porte franceses EC-725 Super Cougar. Naturalmente, com a aproximação da decisão sobre o programa do novo caça da FAB as fortes pressões dos diversos grupos interessados nesta concorrência começam a vervilhar na imprensa ALIDE achou que já era hora para conhecermos o que é o Departamento da Indústria de Defesa (Comdefesa) da FIESP e o que pensa seu Diretor-titular o Dr Jairo Cândido. ALIDE: Qual era o objetivo quantitativo da criação do COMDEFESA da FIESP em 2007, e como foi este processo de criar um comitê da FIESP dedicado à industria de defesa? Foi um processo simples, ou foi difícil? JC: Ao criar inicialmente o Comitê da Cadeia Produtiva da Defesa (Comdefesa), em 2004, a ideia do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, foi promover participação mais ativa destas indústrias para desenvolver o setor. Com as âncoras industriais, o Comdefesa tem representatividade de quase 95% do PIB da área de Defesa. Ao longo dos anos, os projetos do Comdefesa agregou representantes do Ministério da Defesa (MD), Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), centros tecnológicos, entre outros. Em 2006 foi assinado convênio com a Escola Superior de Guerra (ESG), que permite que a Fiesp realize o Curso de Gestão de Recursos de Defesa (CGERD), em São Paulo, que tem como objetivo alinhar os interesses civis e militares dos assuntos no Brasil. A aproximação com as Forças Armadas foi importante e fundamental para o sucesso de todos os projetos. Essa integração proporcionou à Defesa Nacional inúmeras conquistas, tais como a criação da Estratégia Nacional de Defesa, a eliminação de PIS, COFINS, PASEP e IPI para aeronaves, navios e veículos blindados de emprego militar. Em 2007 o Comdefesa ganhou na Fiesp o status de departamento, mantendo-se sob a mesma sigla simplesmente pelo fato de ela ter se tornado uma marca conhecida e reconhecida até no Exterior. Ampliamos os projetos e outros temas ganharam espaço, como a inovação, a aviação civil e o mercado internacional.
ALIDE: Dentro do PIB brasileiro qual a relevância dos negócios de defesa hoje em dia e qual seu potencial de crescimento identificado pelas suas análises no curto, médio e no longo prazo? JC: O PIB em defesa, atualmente no Brasil, é incipiente. Traduzindo em números, aproximadamente, R$ 360 milhões. Hoje somos o 37º no ranking mundial, mas já fomos o 8º. Isso porque a Embraer tem significativa participação no mercado internacional com as vendas dos Super Tucanos, e a Avibrás com a comercialização do Astros II. A indústria de defesa está reiniciando sua escalada no mercado nacional e internacional, mas ainda precisa de avanços. Por exemplo: é preciso eliminar a assimetria tributária da cadeia produtiva, porque o produto nacional é quase 40% mais caro, enquanto o produto importado é isento de impostos. Além disso, é necessário identificar a cadeia produtiva de defesa, produto por produto, item por item, para justificar a eliminação dessa distorção ao Ministério da Fazenda. Por conta disso, neste ano, o Comdefesa vai pleitear junto ao Governo a desoneração do setor para promover a competitividade da indústria nacional. A indústria de defesa possui um único cliente, as Forças Armadas. Para sobreviver e investir em Pesquisa e Desenvolvimento precisa vender. Com essa premissa básica, o Comdefesa tem a Divisão de Mercado Internacional com planos de participação do setor em missões empresariais aos países potencialmente compradores. Para o setor industrial de defesa, o mercado ainda não aqueceu. Somente estão sendo realizadas aquisições pontuais. As Forças Armadas não têm orçamento para seu reaparelhamento capaz de incrementá-lo em curto ou médio prazo. Produto de Defesa “não se encontra em prateleira”. Tecnologias e equipamentos que nos coloque a nível competitivo internacionalmente requerem investimentos, estudos, análises e capacitação. É caro e não temos recursos disponíveis para acelerar o processo. As compras ainda dependem de financiamento do Exterior. Isso é dispendioso para o Brasil. Se houvesse fundos de investimento específico para a defesa no país, seria possível alavancar o setor com mais propriedade, pois temos competência humana e histórica em produção de equipamentos que já são considerados os melhores do mundo. A consciência social e a defesa precisam acontecer. A sociedade brasileira tem o mesmo interesse, sentir-se segura. Somos hoje alvo de cobiça pela água e pelas fontes de energias renováveis. Falo de sobrevivência, água e oxigênio. Os demais recursos do mar, do solo e dos rios já são conhecidos mundialmente. Permitimos que laboratórios, ONGs e outros se instalassem e descobrissem o que nós ainda desconhecemos quanto à extensão dessas riquezas. Promovemos e defendemos parcerias com os países que desejarem investir no setor industrial de defesa. Aliás, é regra do jogo, está na Estratégia Nacional de Defesa. A Força que necessitar de equipamento que a indústria nacional não produz terá que comprar por meio de um fabricante internacional que tenha um parceiro no Brasil. A transferência de tecnologia e a busca de novos mercados beneficiarão o Brasil para alcançar um patamar tecnológico.
ALIDE: Como foi no dia-a-dia a participação do Comdefesa na formulação da nossa nova Estratégia Nacional de Defesa? Quais pontos específicos da END foram fruto de propostas da FIESP? JC: O Comdefesa não participo de maneira direta da elaboração da END. No mesmo período, a Fiesp estava formatando um Projeto de Lei Complementar (PLC) para conceituar Produto de Defesa e Produtos Estratégicos de Defesa, com o objetivo de eliminar a distorção tributária. Foram sete anos de trabalho. Entretanto, com a edição da END, o setor da indústria foi contemplado com esses pleitos. Quando a END for implementada, a Defesa terá uma nova perspectiva; será elevada ao nível que um país como o Brasil e seu povo merecem ter.
ALIDE: Muitos analistas da atividade de defesa no país temem que os objetivos arrojados que constam da Estratégia de Defesa Nacional não sejam seguidos ou respeitados por um outro governo que se siga ao do Presidente Lula. Na visão da FIESP, esta movimentação governamental em prol de Forças Armadas bem equipadas, dissuasivas e operando material quase que todo fabricado no país teria “gravidade” suficiente para suportar qualquer troca de governo? JC: Sim, mas se a consciência da sociedade brasileira for despertada ao ponto de compreender o que é a nação brasileira, ter noção da responsabilidade de protegê-la e respeitá-la por ser brasileiro, e que ser brasileiro já nos torna diferenciados. Somos pacíficos, receptivos, alegres, mas os donos legítimos do Brasil. O Presidente da República é legitimamente eleito para representar o povo brasileiro e nos proteger de todo tipo de ameaça. É o chefe supremo das Forças Armadas e estas são preparadas para exercer e executar a Defesa Nacional. E este não é assunto restrito do Governo e das Forças, mas sim responsabilidade de cada cidadão aqui nascido e que enxerga esse país como nação. Se o futuro Presidente da República não for estadista a esse ponto não merece ser nosso líder. Dessa forma, nós acreditamos que a Defesa Nacional será assunto da pauta diária do Chefe Supremo das Forças e do Congresso Nacional. A Fiesp continuará atuando junto ao Governo para unirmos cada vez mais brasileiros nesse projeto que é a independência tecnológica e inteligência social, projeção de nação soberana.
ALIDE: Para os Srs. a maior oportunidade de mercado para as indústrias de material de defesa do Brasil se encontra dentro do país, na recomposição das nossas FA, ou na exportação para países amigos? JC: Nos dois mercados. É o famoso círculo virtuoso. Investimos, projetamos, desenvolvemos, produzimos, vendemos e tornamos a investir. Faz parte de todo planejamento estratégico. Os equipamentos que as Forças compram em outros países passam por todo esse processo e a prioridade é a compra no mercado interno, que irá criar subsídio para P&D. Os negócios de defesa são feitos de nação a nação e não de empresa a empresa. A articulação é diferente dos demais setores - tanto produtivo quanto o de serviço - e o governo participa dessa negociação todo o tempo. No Brasil, isso nunca aconteceu. Ao longo da história, a indústria nunca foi chamada para essas negociações. Ficava a cargo somente do comprador (as Forças), de modo que as cláusulas de compensação não foram aproveitadas em transferência de tecnologia industrial. Muitos dos “offsets” foram utilizados somente em capacitação de recurso humano, o que foi perdido ao longo do tempo ou exportado pelos baixos atrativos em remuneração do que havia no país.
ALIDE: O Brasil sofreu muito na década de 80 com as pressões políticas e econômicas das grandes potências contra suas exportações de material militar. O Sr diria que nossa vulnerabilidade a este tipo de pressão hoje em dia seria menor ou maior do que naquela época? Como o governo deve fazer para conseguir gerenciar estas pressões? JC: Faz parte do jogo e quem quiser ser player deve ser habilidoso, ter economia forte e um governo que defenda esse mercado, tendo como exemplo os países que possuem a cultura de investir em defesa. Estamos tendo a oportunidade de assistir o governo brasileiro sendo pressionado a comprar o FX2 de três países fortes: EUA, França e Suécia. Pudemos acompanhar as articulações de cada governo, chefes de estados e reis e rainhas, vendendo suas tecnologias a outras nações. Nosso governo está desenvolvendo essa habilidade e cultura, no momento em que nossa economia também é admirada em todo mundo. Investir no Brasil é seguro e barato em relação ao dólar e ao euro. Mas, não podemos perder de vista a premissa da END, de que o Brasil não compra mais. O Brasil é parceiro! Como indústria, devemos ouvir e compreender as necessidades e estratégias das Forças Armadas para defender o país em distintos cenários, utilizando diversos equipamentos e de forma integrada acompanhar os processos de desenvolvimento dos projetos e capacitar nossa indústria. Em princípio, devemos nos preparar para receber novas tecnologias e atender aos requisitos que uma parceria internacional exige e, depois, ser protegida do governo para se manter e participar de outros mercados como está descrito na END. O que esperamos do governo é que se possa compreender o que é melhor para o país em desenvolvimento tecnológico, emprego do equipamento pelas Forças e subsídio para novos investimentos. As compras realizadas de forma política não agregaram nada ao país, em ganhos reais, demonstrou que ficamos sucateados e estagnados diante de outras nações, além do equipamento não responder às necessidades de defesa e sua manutenção ficar impossibilitada de ser realizada pelos altos custos cobrados pelos fabricantes estrangeiros.
ALIDE: Como foi que a FIESP se envolveu na proposta da Eurocopter de fabricação do EC-725 na Helibrás? Como este processo específico dos helicópteros pesados nasceu e se desenvolveu.
JC: A Helibrás está em território brasileiro há mais de 30 anos. No contrato de instalação, a empresa francesa se comprometeu a nacionalizar progressivamente as peças da fabricação de helicópteros. O que não aconteceu. Como o Comdefesa trabalha com a união das âncoras, a Helibrás faz parte da diretoria do Departamento, ou seja, é parte integrada da composição dos projetos e atividades que o Comdefesa pratica. Desta maneira, foi possível conhecer o potencial da indústria nacional e se alinhou aos nossos pleitos. Conclusão, novas oportunidades se abriram. As indústrias com tecnologia similar aos exigidos pela empresa teve de início a proposta de parceria. A partir daí, em três anos de articulação e estudos, foi verificado como poderia se produzir o EC-725 no país e para as três Forças, atendendo as prerrogativas das outras empresas francesas associadas à Helibrás Parece fácil aos olhos de quem vê, mas a negociação foi bastante trabalhosa e, para que fosse concretizada, todos os atores tiveram que aprender novas formas de negociar, novas políticas, novos métodos de produção, montagem e manutenção. Estruturar o círculo virtuoso. Novas práticas para os dois lados, mas felizmente o resultado foi vitorioso para a indústria nacional. É nosso desejo para 2010 e para os próximos anos que essa proposta de negócio se torne rotina. Contudo, nesse início, sai na frente as que estavam mais capacitadas, ou melhor, aquelas que tiveram condições de investir em tecnologias de emprego dual.
ALIDE: O Sr diria que os franceses teriam conseguido “vender este peixe”ao governo sem o apoio ativo da FIESP? JC: A Helibrás fornece para o governo há muitos anos, os Cougar, Panteras e o Esquilo, que fazem parte dos equipamentos das três Forças. A diferença é que, no caso da Helibrás, houve apoio do governo e de vários ministérios na nova prática de negociação. Como todo projeto que está em fase embrionária, é preciso preservar a exposição daqueles que não estão diretamente envolvidos para não haver desgastes além do necessário. Somente anunciamos depois de tudo ficar “redondo”. Atender as exigências de uma empresa de renome internacional pela qualidade e desempenho de seus equipamentos, é extremamente oneroso e trabalhoso, requer determinação em querer participar, dando certeza de que os requisitos solicitados serão atendidos. Não basta querer ser parceiro, têm os fatores imprescindíveis para que nos faça ser concorrentes. E isso não quer dizer que há garantias. Qualquer inadequação está sujeita a rígidas penalidades e, muitas vezes, irreversíveis ao retorno à parceria depois da perda da credibilidade.
ALIDE: Recentemente as empresas da cadeia aeroespacial brasileira foram verdadeiramente assediadas pela Dassault, Boeing e Saab. Como foi o contato com cada uma destas empresas e porque aparentemente a FIESP resolveu apoiar abertamente a proposta sueca? JC: O relacionamento com as três fabricantes e concorrentes do FX2 foi excelente em nível político. A Fiesp se propôs em realizar eventos com as empresas, de maneira apartidária, com o intuito de promover o relacionamento e a aproximação de possíveis parceiros, como indústria definida e setorizada. A Defesa, sabendo de todas as exigências, conhecedora dos cenários do Brasil e compreendendo a limitação das indústrias nacionais e algumas com acordo de exclusividade, restringe a tecnologia e recurso humano para o FX2. Defendemos de forma realista as possibilidades que melhor atenderia a todos e, como empresário do setor, sei o quanto custa esse investimento e dependendo de capital estrangeiro, o que o torna muito mais caro ainda. Não podemos despender além do que podemos. Ser realista nessa hora é poder ver com clareza o que mais atende o país, a economia e a defesa no mesmo peso e comento a minha sugestão. Mas a escolha está dentro de um envelope lacrado nas mãos de que tem poder legítimo para sua decisão. De modo que depois da decisão tomada e divulgada iremos ver o que de fato o Brasil terá de tecnologia e retorno para o investimento que fará com o FX2.
ALIDE: A academia brasileira já está produzindo técnicos e engenheiros em numero suficiente para atender às demandas da indústria de defesa? Como a FIESP está trabalhando para melhorar a ligação indústria universidades? JC: Desde quando o COMDEFESA era Comitê, temos na composição um representante acadêmico. Começou como aluno do curso de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e hoje é mestrando do Pró-Defesa. Os centros tecnológicos também estão representados, da mesma maneira que a Fiesp tem patrocinado o Curso de Gestão dos Recursos de Defesa, em parceria com a Escola Superior de Guerra. Em 2010, nos planos do Departamento, iremos ampliar o relacionamento já existente.
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